Sobre as ruas: paz e alegria como manifestações políticas – por Fernando Chuí

O cantor Cazuza clamou ao povo em sua música “Burguesia”:

– Vamos pra rua! Vamos pra rua!

O que ele não poderia prever era que a rua seria igualmente tomada pela chamada burguesia, referida ala abastada da sociedade da qual ele próprio fazia parte.
O grito das ruas é parte expressiva hoje de nossa política. Para todos os lados. Pois há uma parte expressiva da política que se dá como uma queda de braço.

Há três campos de atuação política: a luta pelo domínio dos conceitos, a negociação governamental/legislativa e a expressão pública: as ruas.
Assim tem sido na política progressista contemporânea, da política de cotas raciais e sociais à luta pelos direitos LGBT e à segunda revolução feminista que se nos apresenta.
Foi finalmente incorporada como espaço de medição de forças entre os diferentes lados de cada questão social. Por essa razão todo gesto público se torna um movimento particular na negociação política. O pacifismo é instrumento político mais imponente hoje do que a ação anarquista Black Block – deve-se cuidar para qual lado se aponta. A rua precisa do elemento alegre para ganhar força política de negociação. Black Blocks, para além da questão do vandalismo, é uma ação anacrônica e ineficiente. A manifestação pacífica foi uma das armas mais eficazes da neo direita nas ruas, dando munição para a queda de Dilma Roussef.

Curiosamente, uma das quedas de braço recentes foi a respeito do quão pacífica e familiar a manifestação anti Temer foi no domingo, dia 4 de setembro. O governo acusa a passeata de arruaceira; a manifestação se afirma pacífica. A não violência é um valor hoje em disputa política.
A rua é agora e para sempre um dos mais importantes palcos da transformação política. Queda de braço, negociação, promessa.
Com isso valem manifestações contra o governo, bem como a avenida paulista livre aos domingos e a retomada do carnaval de rua – porque a alegria também é política.

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