Guerra Civil – por Michael Gonçalves da Silva

Este ano, fomos bombardeados com filmes de super heróis nos cinemas. Foram muitos e alguns proporcionaram momentos de alegria e de alienação consentida (feliz, da minha parte) e outros decepcionaram muitos nerds como eu, que esperavam encontrar coerência entre seus personagens favoritos e estas narrativas cinematográficas.
Eu, como fã e observador da cultura pop, gostaria de, estabelecer uma relação metafórica entre um destes filmes, que a meu ver é um dos mais bem sucedidos filmes de herói do ano e o contexto cultural e político no qual estamos batalhando dia a dia (como diria Victor Turner!): Guerra Civil.
O filme que é produto da Marvel Comics, aproveita uma série de histórias de heróis de 2007 que afetou todo o universo de quadrinhos da empresa e que colocava em lados opostos, não heróis e vilões, mas os principais heróis deste universo, liderados pelo Capitão América de um lado e pelo Homem de ferro do outro! O que tem demais nisso? A meu ver, muita coisa interessante de analisar. Vejamos alguns aspectos.
Primeiro, o fato de não haver vilões (ok, aparecem Ossos Cruzados e Zemo, mas são inexpressivos), mas heróis com pontos de vista diferentes sobre questões da relação do Estado com os indivíduos. No filme, a polarização se dá por conta da crença de um de que é importante o controle do Estado sobre o grupo dos Vingadores e de que o terrorista (Soldado Invernal), não tem direito a defesa, pois deve ser aniquilado antes que cause maiores males! No caso da série dos quadrinhos, o roteiro é bem mais interessante no argumento, pois temos a disputa por conta da Lei de Registro de Super Humanos, uma lei que regulamentaria o “trabalho” dos heróis; que foi proposta com o intuito de diminuir os efeitos colaterais da ação dos heróis, mas revela no fundo que se tratava, também, de um desejo de estabelecer mecanismos de controle.
O fato de ter heróis disputando nas representações da indústria cultural é sintomático!
Creio que isso significa que as disputas não envolvem grandes verdades, ou a velha e maniqueísta luta do bem contra o mal. Deixando de lado a questão do quão maduro parece ser a disputa a respeito de algo relativo, algo bem realista, vamos observar outro fenômeno: fãs com um comportamento polarizado. Percebi isto, pois cansei de responder à pergunta Team cap ou Homem de Ferro?
Será que a falta de vilões e a polarização de discursos não seria semelhante aos comportamentos culturais políticos que temos visto nas ruas, nas redes sociais e conversas informais desde as últimas eleições? Será que não seria expressão da crença inconsciente de que errado é o outro, aquele que discorda de mim?
As estratégias de divulgação do filme em meados do início do ano, focaram especificamente na polarização e acredito que isto revela um comportamento bem diferente entre fãs de quadrinho, pois a divergência é comum, mas a polarização baseada nos heróis é bem curioso para mim. Esta estratégia foi vista antes em outros quadrinhos, claro, mas acredito que ver isto exatamente quando Brasil e Estados Unidos (terra onde a narrativa em questão surgiu!), estão em momentos tão evidentes de polarização política e cultural, pode nos dizer que ao invés da luta contra a corrupção, contra o descumprimento do contrato social, estamos assistindo a luta entre os cidadãos que discordam, pois assumem o enfado da inimizade.
Politicamente correto versus politicamente incorreto, por exemplo, representam uma batalha simbólica, conceitual, ideológica e política dos indivíduos que ocupam basicamente os mesmos espaços culturais. Alguns tem maior domínio de certos espaços, mas com o mundo cada vez mais desterritorializado, os embates se tornam inevitáveis.
Ver Steve Rogers e Tony Stark, dois arquétipos bem diferentes, mas muitas vezes convergentes agora em lados opostos me faz lembrar de quantas vezes tenho me deparado com a discordância veemente e por vezes radical de pessoas próximas. Os debates acalorados do cinema e dos quadrinhos nem sempre são debates calcados na razão, mas beiram o capricho, pois chega uma hora em que não há mais dialética, mas retaliação progressivamente mais violenta. E não é isso que se vê por aí? Brincadeiras cada vez mais intolerantes, a avacalhação escancarada se disseminando em rede e recrutando arautos para multiplicar as vociferações de violência simbólica?
De um lado, o herói que deseja o registro dos para que os vigilantes trabalhem como membros de uma agência e de outro, um herói que quer preservar o direito à privacidade e à identidade secreta dos heróis, ou seja, um herói que, mesmo que símbolo da indústria (Tony Stark, o homem de Ferro – que se veste de vermelho), seja alguém que defende maior controle por parte do governo e de outro (de azul!), alguém que defende a livre iniciativa e a conservação de um velho estilo de vida!
Acredito que seja terrível não ver o símbolo arquetípico que existe para dar força ao homem comum para vencer seus desafios sem poder enfrentar aquilo que indiscutivelmente é mau: o exercício desmedido de poder, a exploração e a violência, o ataque aos direitos humanos e civis. Este é um quadro semelhante ao do mundo calcado na competência/competição que se acirra dia após dia por conta da equivocada noção de que preciso lutar contra o outro e não com ele.
Bom, no caso das obras da Marvel, estava claro que havia um mal estar em ver amigos se enfrentando, mas (ALERTA DE SPOILER) no final, a sensação é a de que mesmo que alguém saia com vantagem, ninguém saiu ganhando; serviu, apenas, para que os verdadeiros inimigos deles saíssem fortalecidos por tirarem vantagem da desatenção por conta desaa disputa.
Como dizia um dos trailers do filme, divididos, nós caímos!

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