Sobre a pichação nas homenagens aos bandeirantes – por Fernando Chuí

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Muitos se chocaram com a pichação feita noites atrás no Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret.

No entanto, pensemos juntos.

Se houvesse um monumento em homenagem à escravidão humana, acharíamos tão terrível o ato de picha-lo?

Se houvesse um monumento em homenagem à invasão de vilas e à violência desmedida contra suas crianças e idosos, condenaríamos tão rigorosamente essa ação?

Se houvesse um monumento em homenagem ao assassinato em massa, a opinião pública estaria absolutamente contra sua dilapidação passageira?

Se houvesse um monumento em homenagem ao holocausto, pensaríamos dessa forma?

Pois bem, é disso que se trata.

Nossos bandeirantes foram muito piores do que os nossos pichadores. Invadiram nosso território, devastando sem piedade seu povo em busca de ouro, assassinando e escravizando os nossos indígenas, assim como os negros que se refugiavam nos quilombos.

Curiosamente, a despeito de toda a carnificina e depredação do legado dos bandeirantes, houve uma busca pela caracterização positiva – heróica – de seus atos. Isso aconteceu como forma da elite paulista das décadas de 1920 e 1930 buscar reafirmar seu poder em um momento de crise política. Mas nossos livros de história nos descrevem bem sua ação devastadora.

Eles não entraram em nossas casas à noite e picharam nossas paredes. Eles sistematicamente ameaçaram, assassinaram e escravizaram a população. Em nome do poder.

É esse o símbolo pichado. Não foi escolhido por acaso. Notemos que a estátua do Borba Gato foi pichada na mesma noite – algo como: prestem atenção, não escolhemos à toa esses monumentos.

Sobre a lei, não há o que discutir, pichação é crime – pichadores sabem disso tanto quanto nós, e por isso mesmo o fazem. Mas, para além disso, é preciso que observemos quais símbolos foram pichados para uma compreensão mais ampla desse fenômeno social.

Alemães não tem orgulho do legado nazista. As homenagens e os monumentos foram feitos a suas vítimas.

 

foto: Zanone Fraissat/Folhapress

4 comentários sobre “Sobre a pichação nas homenagens aos bandeirantes – por Fernando Chuí

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