Luke Cage: um herói da periferia – por Michael Gonçalves

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“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a pregar a liberdade para os cativos e restaurar a vista aos cegos, para libertar os oprimidos…” Lucas 4,18

Este texto se refere a Jesus Cristo e justifica que Ele é o Cristo (ungido) e caracteriza o personagem da Marvel Comics que acabou de ganhar a sua série própria, produzida pela Netflix, Luke Cage.

Um ex-prisioneiro que, por conta de uma experiência de regeneração mal (ou muito bem) sucedida, “renasce” como um homem indestrutível, pois adquire como seus poderes uma pele super resistente e força superior à de um homem comum, capaz, por exemplo, de derrubar paredes aos socos.

Chamam-me a atenção alguns aspectos sobre esse herói, pois insisto que os heróis que sobrevivem ao tempo nos quadrinhos são aqueles que inspiram, que atendem a expectativas e desejos dos leitores e expectadores. Como diria Foucault, o que insiste, existe!

Luke Cage simboliza o herói da periferia. Com poderes que combinam com as pessoas da margem dos centros urbanos e que se importam com aquele lugar, exatamente por serem dali. Os outros heróis estão distantes demais para compreender os sofrimentos daqueles desvalidos; mas Luke não – ele é um sujeito daquela realidade.

Não acho aleatório que Luke Cage seja um homem negro, que, como tantos, foi incriminado por conta da facilidade de convencer as instâncias legais de que um homem negro da periferia seja um criminoso. Não acho aleatório que seu pai seja pastor e que seu nome, Luke, seja retirado do livro bíblico que apresenta Jesus com mais intimidade e espírito de família.

Ele é um típicamente humano, alguém mais factível que um Tony Stark ou um Steve Rogers (Homem de Ferro e Capitão América).

Luke ganha seus poderes sendo mergulhado no que ele mesmo chama de aquário; mas lembremos que Jesus em tese começa sua jornada como o Cristo, após o seu batismo por imersão no rio Jordão; bem como Aquiles, grande herói da mitologia grega, que se torna indestrutível ao ser mergulhado no rio Estige, mas como fora segurado pelo calcanhar demarca ali a sua fraqueza.

O poder de Luke é de fato o poder do sujeito da periferia: a resistência, a força, a capacidade de lutar. O homem pobre, negro de periferia é um resistente, um lutador, bem como o herói é caracterizado. Cada dia para ele é uma luta, a cada dia, ele lida com uma nova perda e com a necessidade de recomeçar, a busca constante por trabalho e a capacidade de fazer as tarefas mais simples que ninguém mais quer para viver com dignidade.

Luke está no Harlem e como sujeito daquele espaço/tempo, não permanece alheio ao que acontece por ali e exatamente porque é dali, é capaz de empatizar com os problemas daquela população.

Outros heróis ricos e megalomaníacos estão preocupados demais com suas vidas e problemas “de outro nível” para ajudar aqueles pobres e é por isso que heróis como homem aranha (amigão da vizinhança) e Luke Cage surgem, para lembrar que os que realmente se importam conosco são aqueles que andam entre nós e que os outsiders, apesar da boa intenção, não são tão competentes em empatizar porque lhes falta justamente esta noção profunda do que é ser do Harlem, por exemplo.

Curiosamente, por esses dias, em uma assembleia na cidade de Charlotte, palco de violentos protestos por causa da morte de homem negro por um policial, uma menina de nove anos chamada Zianna Oliphant discursou emocionadamente por conta da violência contra a comunidade local, negra e de periferia. Coincidência ou não, surge neste momento uma série para nos lembrar de que a tensão racial e de classe continua um problema importante a ser debatido.

Que pena que no mundo real haja poucos Lukes – e Ziannas(?) – e que muitas vezes se coloque esperança naquele que está tão distante da realidade e que se mostra incapaz de entender os sofrimentos peculiares de quem paga hoje o preço de estar vivo amanhã.

(ilustração: Fernando Chuí)

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