A omissão, a alienação e o Não: Os vitoriosos nas eleições municipais – por Luis Carlos de Menezes

img_1452

Uma consulta popular a cada quatro anos parece pouco, em tempos ágeis de redes sociais. Por isso, seu resultado precisa ser mais bem observado, não bastando saber quem ganhou no primeiro turno ou quem ganhará no segundo. É preciso ir mais fundo e interpretar nacionalmente a mensagem das urnas dos pleitos municipais.

Como o voto não é facultativo, as abstenções e os votos nulos e em branco expressam escolhas deliberadas. Nacionalmente, a soma desses votos foi amplamente majoritária, e poderia receber a denominação genérica de “omissão”, indiscutivelmente a primeira colocada no primeiro turno.

Talvez possa ser mais bem interpretada como descrença no sistema político, resultado de uma percepção da irrelevância do exercício do voto. Por exemplo, pode se abster ou votar em branco quem se sentir irrelevante diante da “máquina pública”, ou pode votar nulo quem compreender que, num governo de coalizão, quem quer que se eleja, para ter maioria no legislativo, pode vir a empregar oportunistas e corruptos que só querem se aproveitar dos cargos.

Lembremos agora que parte dos candidatos eleitos se vangloriou de “não ser político”, de ser unicamente um “administrador”. Há não muito tempo, era uma depreciação para um gestor público “não ser político” e ser identificado como “tecnocrata”, isto é, o que “governa com critérios meramente técnicos, sem atenção a aspectos sociais e humanos”.

Se somados nacionalmente, os votos nesses políticos poderiam ser reunidos na categoria “alienação”, a segunda colocada nas eleições municipais. Como os programas dos partidos ostentam adjetivos como social, liberal, democrático, sem relação com o que de fato fazem, a opção alienada é votar nos que se intitulam “não políticos”, ou seja, nos “tecnocratas, com muita honra”…

Finalmente, dado o insucesso da maior parte dos prefeitos que pretendiam reeleição, nacionalmente, o “não” foi o terceiro colocado no pleito municipal. A interpretação, nesse caso, é mais simples: ou muitos eleitores que se omitiram na eleição anterior, agora fazem uma escolha, ou um número expressivo de eleitores se arrependeu da escolha feita, por considerar que os eleitos não honraram os compromissos.

Noutras palavras, o “não” pode ser compreendido como uma decepção com a própria “omissão” ou com a própria “alienação”, atitudes próximas, aliás. É um mero terceiro lugar, mas sinaliza para a necessidade, e talvez, para uma vaga esperança de um movimento pela revisão do regime de coalizões espúrias, e para que os partidos tenham programas reais e respondam por eles.

Se um dia será possível tal reforma política, quem sobreviver verá…

(Ilustração: Fernando Chuí)

3 comentários sobre “A omissão, a alienação e o Não: Os vitoriosos nas eleições municipais – por Luis Carlos de Menezes

  • Em 2011, em entrevista ao CPF, Bauman dizia que a Democracia nunca esteve em maior descrédito desde as gerações pós guerras… Leiamos os sinais dessa descrença.

  • Admiro o professor Menezes. Nunca me esqueço daquela serie Debates Impertinentes, ele e Haroldo de Campos falando sobre o tempo. Uau!

    Isso ficou lá atrás, no baú das boas memórias dos tempos de Fisica. Com respeito a esse texto, gostaria de comentar alguns pontos.

    O sufrágio ocorre a cada dois anos e nao quatro. São cargos distintos, sei, mas o caminho até as urnas nos é lembrado a cada dois anos e portanto, a cada dois anos nos lembramos que somos governados por políticos. Aliás, o fato de Doria ter se posicionado como um gestor, é resultado claro de pesquisa demonstrabdo a insatisfação com a classe politica. Não é pra menos, se soprsarmos o fato de o “partido da ética” ter assaltado os cofres publicos sem pudor por 13 anos.

    O nao comparecimento as urnas pode ser um sinal de cansaço. Afinal, nada se resolve e via de regra trocamos de ladrão, não? Mas ha que se lembrar que esse indice tem sido bem alto já faz alguns anos. Quando o PT vencia, isso não parecia ser um assunto para sociologos tratarem, já agora…

    Um abraço ao Chiu!
    Michel

  • Admiro o professor Menezes. Nunca me esqueço daquela serie Debates Impertinentes, ele e Haroldo de Campos falando sobre o tempo. Uau!

    Isso ficou lá atrás, no baú das boas memórias dos tempos de Fisica. Com respeito a esse texto, gostaria de comentar alguns pontos.

    O sufrágio ocorre a cada dois anos e nao quatro. São cargos distintos, sei, mas o caminho até as urnas nos é lembrado a cada dois anos e portanto, a cada dois anos nos lembramos que somos governados por políticos. Aliás, o fato de Doria ter se posicionado como um gestor, é resultado claro de pesquisa demonstrabdo a insatisfação com a classe politica. Não é pra menos, se soprsarmos o fato de o “partido da ética” ter assaltado os cofres publicos sem pudor por 13 anos.

    O nao comparecimento as urnas pode ser um sinal de cansaço. Afinal, nada se resolve e via de regra trocamos de ladrão, não? Mas ha que se lembrar que esse indice tem sido bem alto já faz alguns anos. Quando o PT vencia, isso não parecia ser um assunto para sociologos tratarem, já agora…

    Um abraço ao Chiu!
    Michel

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *