Professor: a imagem equivocada do herói – por Fernando Chuí

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Não raro, recebo textos e vídeos em que – boa parte das vezes na melhor das intenções, diga-se – o ofício do professor é colocado como trabalho do heroísmo: o esforço hercúleo e diário diante das condições adversas de nosso sistema educacional.

Essa imagem é reforçada em nossa cultura pelo cinema, no qual o professor, via de regra, é representado por personagens que costumam atravessar sua “via Crucis” para ter sucesso ao final da história e conquistar a admiração e o respeito social. Não são dois ou três filmes – na verdade, não me lembro de nenhum filme cuja representação do professor não trace o caminho do herói. Tenhamos cuidado com essa ideia.

A idealização é uma das camuflagens da segregação. É o revés da mesma moeda que aplica o castigo. Por exemplo: uma das maneiras que a sociedade patriarcal sempre teve de manter sua lógica de subjugação das mulheres foi a construção do ideal romântico; esse que manteve a mulher acorrentada em nossa cultura entre a imagem da divina perfeição e a figura do Diabo. Contos de fada, romances, filmes, letras de musica, etc.

Ou seja, se não pudermos contemplar seu ideal de perfeição, podemos ainda nos escorar no polo oposto da personificação do mal. Uso o exemplo feminista para que tenhamos muito cuidado antes de idealizarmos a imagem do professor.

Um professor madrugar, submergir sua vida pessoal em uma rotina de 60 horas semanais e dar a alma pelo calendário escolar, isso não o eleva, mas o massacra.
Eis o perigo. O herói é cultuado em seu sacrifício. Ao herói não se emenda o pagamento. A ele não se espera a justiça, somente a póstuma admiração.

Observemos que a figura do herói ocidental é calcada justamente na imagem do sacrifício de Jesus Cristo – um homem que sofre pelos pecados de seu povo. E o saldo moral àqueles professores que não derem seu sangue pela cruz da educação será a pena de ser considerado culpado pelos vícios do sistema.

Tantas vezes não se responsabilizará o sistema anacrônico, mas o professor que não se atualiza; não a sala que tem alunos demais por turma, mas o professor que não consegue ser didaticamente competente; não a escola que não entende uma geração inteira que pensa e reage diferente da lógica escolar iluminista, mas o professor que não domina as novas linguagens.

Quando o sistema vem ano a ano vitimar os estudantes, saibamos que a fatura dessa violência pedagógica quem paga é o professor. Baixos salários, tempo escasso para formação continuada, desvalorização sistemática de sua imagem na sociedade. A não ser em superficiais homenagens a seu suposto heroísmo.

Não, o professor não é herói. Essa lógica é perversa com o profissional que merece pagamento adequado por sua imensa contribuição à sociedade.
A docência é uma profissão belíssima. Nobre, difícil. Muitas vezes realizadora também. Mas não é ofício do heroísmo.

O professor trabalha por seu ideal, mas não quer para si o papel de salvador da humanidade. Trabalha com afinco porque é esse seu registro social, é sua vocação, sua missão. Não seu sacrifício.

Lembremos que toda vez que o governo anuncia uma mudança de políticas escolares, cortes de gastos com educação ou na própria estrutura escolar, isso tem consequências sofríveis diretamente a seu cotidiano.

Mas o professor não é mero fantoche do pensamento educacional leigo de políticos, burocratas e economistas. É um agente pensante e crítico do sistema que representa.

O professor quer acima de tudo respeito. Não medalhas.

 

(ilustração: Fernando Chuí)

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