Narcisismo hoje: nosso perigoso espelho de selfies retocadas – por Michael Gonçalves & Fernando Chuí

img_1793

Uma das marcas comportamentais mais características do nosso tempo é o narcisismo. Selfies, likes, crushs, emoticons e corações pulsantes voam diariamente por nossas telas de celulares e rumam diretamente ao celeiro do nosso amor próprio. Redes virtuais formadas por múltiplos indivíduos ensimesmados, cuja atenção é focada na estetização de sua própria vida e de sua própria idealização no mundo: cegos àquilo que ocorre alheio a nosso mundo de espelhos.

Narciso, personagem da mitologia Grega, era um rapaz belissimo, mas que recebeu a sentença de um adivinho de não poder mirar a própria imagem sob a pena de perder sua longevidade. Arrogante, desprezava a todos, inclusive a Eco, moça que o amava incondicionalmente; mas como vingança pelo sentimento de rejeição, ela pediu aos deuses que o castigassem. O castigo foi dado: apaixonar-se por si próprio. Certo dia Narciso, ao olhar para uma fonte, acabou por ver a própria imagem. Ficou enlouquecido de amor e doentiamente apaixonado pelo que via – algo que nunca poderia lhe retribuir o amor, pois apesar de parecer, não era a si mesmo, mas a imagem refletida que tanto seduzia as pessoas ao seu redor. Para aplacar a dor desse amor tão torpe, Narciso mergulha na fonte em busca daquela imagem e morre afogado tentando encontrar ali, seu objeto de amor. Em busca do amor pela imagem idealizada de si mesmo, Narciso se destrói.

Vejamos o cenário atual. A multiplicação de projetos de lei das bancadas evangélicas reforçando a imposição de seus padrões morais à sociedade; os discursos de Donald Trump propondo retomar a produção de energia “suja”, não cumprimento de metas ambientais, segregação e fechamento dos EUA; a islamização proposta pelo Boko Haram e pelo Estado Islâmico; o ódio crescente nas redes por quem defende discurso de direita ou de esquerda; o fenômeno dos “haters” nas páginas, blogs e vlogs. Tudo isso são mostras de ações de fundo narcisista: a aversão a tudo que não é o reflexo idêntico de si mesmo.

Nada disso se parece com a ideia grega de simpatia, como se houvesse o encaixe entre os seres simpáticos, mas considerando que cada um tem sua “própria forma”. Está mais para um exercício de igualação, ou de encontro com o mesmo, como um olhar para o espelho.

Crescem dessa maneira diante de nossos olhos os fundamentalismos, os preconceitos sistemáticos e os ultraconservadorismos – ideais que tem elo com a cultura do ego, do sujeito ensimesmado e individualista que chafurda na busca incessante de um si mesmo inexistente.

Nosso narcisismo nos faz buscar a repetição da imagem refletida e a negação de tudo que dela se difere. Resulta disso a negação, mais do que de uma suposta tolerância em si da diferença, mas da apreciação pela diversidade cultural/sexual/religiosa.

O narcisismo contemporâneo troca o espelho pelas selfies. Mais eficiente do que se olhar pelo reflexo do espelho d’água é manipular digitalmente nossa imagem para sermos adorados pelos olhos do outro. Pois agora nosso tempo nos ensina que só assim poderemos nos apaixonar por nós mesmos. Que perigo.

Sim, pois nossa paixão egocêntrica se atrela à ideia de rejeição a tudo que não faz parte da ideia que temos de nossa imagem. E como essa imagem sequer nos pertence, essa rejeição é de nossa própria imagem concreta. A falta de vontade/iniciativa para agir com e para o outro é o germe do ódio político.

Enquanto isso, ficamos entretidos com coisas que nos dão prazer efêmero e eventual notoriedade, conectando-nos apenas a nossos semelhantes, elegendo pessoas como se elegêssemos a nós mesmos em um espelho de selfies retocadas por mil filtros, cujas imagens sequer nos pertencerão um dia.

(ilustração: Fernando Chuí)

Um comentário sobre “Narcisismo hoje: nosso perigoso espelho de selfies retocadas – por Michael Gonçalves & Fernando Chuí

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *