Black Mirror: indústria cultural na frente do espelho – por Murilo Resende

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No filme Matrix (1999), em uma cena antológica do cinema contemporâneo, o personagem Morpheus (Laurence Fishburne) explica ao protagonista Neo (Keanu Reeves) o que é Matrix, em tom de advertência:

Você deve entender que a maior parte dessas pessoas não está pronta para acordar, e muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo.

Da arte para o cotidiano, é possível localizar o som da advertência de Morpheus ao nosso redor. Em um momento de escassez de diálogo, com pouco espaço para questionamentos. Nos dias de hoje, nos tornamos inconvenientes e até anacrônicos quando propomos alguma reflexão sobre nossa sociedade violenta e dormente. Parece que uma das poucas saídas para aqueles que insistem em problematizar está na utilização do humor e do sarcasmo como vetor de deslocamento, que nos leve a uma pequena reflexão.

Talvez seja essa a aposta do já aclamado seriado cult Black Mirror.

A série inglesa, que em cada episódio traz à tona um quase terror presente na “vida ao rés do chão”, se apresenta em forma de crônicas, cuja temática é um futuro próximo dominado pela indústria do entretenimento, pelas redes sociais e pelas traquitanas eletrônicas. Essa asfixiante presença dos aparelhos eletrônicos é constante em cada episódio, que busca discutir as relações humanas (política, economia, cultura) em uma projeção pouco motivadora. Apesar do tom surrealista e sarcástico, o que mais assusta é o fato que muitas situações já estão presentes em nossas vidas ou pelo menos estão sendo gestadas.

Sou devagar com séries. Ainda estou na primeira temporada (que só tem três episódios). Todos são muito bons e perturbadores, mas foi no segundo episódio que repousou minha inquietação.

Intitulado 15 milhões de méritos, esse capítulo trata de uma sociedade (provavelmente a britânica) que vive mergulhada na indústria do entretenimento. Sem uma separação clara da realidade vivida e da vida virtual, um dos grandes objetivos da população é pedalar em uma bicicleta ergométrica para gerar eletricidade. Cada “ciclista” possui um score, que se transforma em dinheiro para comprar itens de necessidade básica, mas também itens de uma realidade virtual. Tal situação não é original; no primeiro filme da série Matrix (1999), somos apresentados a um mundo dominado pelas máquinas, onde os seres humanos, presos em casulos, devem gerar energia elétrica por meio de suas emoções, instigadas pelo programa de realidade virtual chamado Matrix.

Assim como em Matrix (1999), os personagens do episódio devem assistir à programação gerada por sujeitos não determinados. Essa programação tem como objetivo manter a atenção das pessoas, não permitindo que essas desviem o foca da sua principal atribuição: gerar energia. Não é preciso muito esforço para associar as cenas, tanto da série quanto do filme, à nossa forma de vida contemporânea, formada ainda no século XX.

Foi no século passado, ainda em 1940, que os filósofos T. Adorno e M. Horkheimer escreveram A Industria Cultural. Esse texto sinalizava pela primeira vez o conceito, homônimo ao título, e seus desdobramentos para a sociedade capitalista ocidental. Os autores colocaram sob escrutínio o sucesso dessa indústria do entretenimento em manter as relações de produção capitalistas em seu status quo. De certa forma, esse texto materializou o terrível mal-estar que os filósofos sentiam ao perceberem quem tanto na Alemanha Nazista como um Estados Unidos democrático, eram utilizadas a mesma forma de controle da população: o cinema e o rádio. Dessa forma, independente da escolha política, a sociedade estava sendo pautada pelos donos da indústria cultural.

Esse controle, aponta os filósofos, se utiliza de meios violentos, como a invasão das imagens aos olhos de cada um, que atrofiam a nossa imaginação e espontaneidade. Enquanto consumidores dos produtos dessa indústria, que não são de fácil apreensão, somos estimulados e desenvolver a percepção e o reflexo, e a abandonar a reflexão.

Ao que parece, o roteirista e produtor da série Charlie Brooker leu o texto, já que esse episódio parece ilustração do conceito de Industria Cultural. Talvez Brooker, ao utilizar os recursos da Industria Cultural para questioná-la, aponte elementos para a construção de um futuro menos sombrio e distópico, onde seja necessário compreender a gramática da indústria do espetáculo, utilizando-a como ferramenta de conscientização. Se esse é o caminho, só o futuro dirá. Resta-nos saber se Adorno estava certo quando escreveu a Walter Benjamim durante a Segunda Guerra: “existe imensa esperança, mas não para nós”

Para saber mais:

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A INDÚSTRIA CULTURAL. In: LIMA, LUIZ COSTA (Org.). . Teoria da Cultura de Massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
Black Mirror
Primeiro episódio: 4 de dezembro de 2011
Criador: Charlie Brooker
Indicações: Prêmio Emmy Internacional: Melhor Ator, mais
Gêneros: Ficção científica, Drama, Sátira, Thriller, Fantasia
Emissoras originais: Netflix, Channel 4

(ilustração: Fernando Chuí)

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