Intuição: um fundamento político – por Fernando Chuí

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O mundo contemporâneo é uma metralhadora de informações e, mais do que em qualquer outra época, nos demanda posicionamentos, diariamente. Seja nas redes sociais com suas polarizações ideológicas, seja nas eleições, seja diante de inúmeros fatos hediondos cujas notícias se proliferam e se espalham diariamente em nossas telas.

Um problema: informação não é o mesmo que conhecimento. Como nos posicionarmos quando a procedência das informações é tão questionável? Em uma palavra: intuição.

Intuição é o nome dado em psicologia ao processo inconsciente de nos inclinarmos a determinados caminhos e, portanto, sem de fato clareza do porquê de tais escolhas. Intuição vem do latim “intuitione”, onde “In” significa dentro, e “tuere”, olhar para. Olhar para dentro.

Segundo Einstein, é o que torna possível a criação das teses científicas. É o que guia a produção artística de toda natureza. E sim, também a capacidade que podemos ter de nos posicionarmos diante de determinados contextos sem que tenhamos por fim um conhecimento pleno e efetivo sobre aquilo que se passa nos mesmos.

Diante das redes sociais e novas tecnologias que aceleraram aquilo que já era veloz no século passado – a chegada das informações e o próprio  tempo histórico -, a intuição é questão de sobrevivência.

Mas, ao contrário do que possa parecer, intuição não é algo que não possa ser desenvolvido. O fato de não ser um processo consciente não significa que seja um evento de paranormalidade ou ação mística que nos toma qual oráculo e nos diz a verdade sobre as coisas. Intuição é um fenômeno da campo da percepção – o campo dos sentidos – e, portanto, pode vir a se desenvolver a partir da experiência mais apurada com os mesmos.

A leitura constante dos subtextos alimenta a intuição. As entrelinhas. Os gestos revelados pelo corpo que ostenta o discurso. A estética adotada por cada agente político. O olhar sobre a história da sustentação dos discursos nos dá subsídios intuitivos. A atenção acima de tudo aos detalhes onde, todos sabem, moram Deus e o Diabo.

Atenção para a escolha das palavras utilizadas e para a maneira como alguém as diz. Atenção com a informação e com o meio onde ela está dada. Atenção à posição do corpo que acusa. Atenção à roupa e ao cenário escolhidos pelo idealizador da propaganda travestida de verdade política que nos invade. Atenção ao deboche como arma da falsa dedução. Atenção com a própria vontade de nos vingarmos quando nos deparamos com a acusação de um oponente. Atenção com o impulso de terminar uma sentença antes do final do processo.

A atenção é a matéria-prima da intuição. Quando surge, ela vem de fato sem racionalidade; todavia se fortalece por meio do desenvolvimento de nossa sensibilidade. Intuição, se não se conclui como linguagem, ao menos nos ilumina os sentidos para cada decisão que viermos a tomar.

Muitas pessoas não desenvolvem intuição. Desaprendem a lhe dar voz própria ou, ainda pior, confundem-na com suas paixões, um risco muitas vezes fatal para suas vidas. Intuição não é desejo, não é delírio, não é projeção. Aprender a escuta dessa voz de dentro, acima dos gritos que nos invadem do exterior, pode ser a chave para o desenvolvimento de nossa intuição – na vida política, na vida profissional ou na vida amorosa.

A multidão não tem intuição – essa qualidade é dos indivíduos. A massa não a possui; ela recebe esse nome porque é usada para manobras. A intuição não brada em coros. Até para aderir a determinados grupos, é preciso lançar mão da intuição.

A intuição, tantas vezes, é o único recurso a nos salvar da estupidez.

(Ilustração: Fernando Chuí)

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