Nem foi tempo perdido: as ocupações nas escolas – por Murilo Resende, Michael Gonçalves e Fernando Chuí

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 – Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou.

As ocupações escolares têm sido discutidas sob diversos aspectos: desde a sua legalidade até o seu impacto no ENEM e seu adiamento para parte dos inscritos. Reflitamos que ocupação hoje não é um conceito restrito a movimentos sociais; faz parte de nosso momento histórico e tem relação direta com a conscientização de que podemos e devemos nos integrar àquilo de que em tese fazemos parte. Como a cidade. Ocupar a Avenida Paulista aos domingos. Ocupar as ruas paulistanas no carnaval. Ocupar a cidade – porque nossa.

Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo.

A própria ideia de ocupação se distingue da ideia da invasão pelo diferente sentido de posse que podemos ter em cada contexto. Enquanto o termo invasão traz a ideia de apoderamento abusivo, a palavra ocupação remete à tomada de um espaço a que se pertença – ou que assim o deveria.

– Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia.

Curiosamente, ocupar é um dos sinônimos de colonizar, ou seja, habitar um território, transferindo a cultura e o modo de vida para um novo lugar. Então, o que significaria, a partir do ponto de vista dos estudantes, realizar as ocupações? O movimento juvenil das ocupações das escolas tem uma mensagem clara dita pelos secundaristas: essas escolas deveriam ser suas, mas não são. E eles querem que sejam.

– Sempre em frente, não temos tempo a perder.

Parece que um dos fatores que mais irrita a sociedade é o tempo parado – ou o tempo perdido. Há um acordo tácito presente em nossa sociedade civil de impedir a suspensão da atividade, mesmo que essa atividade não faça sentido. É recorrente ouvir que os jovens foram doutrinados e por trás dessa ideia está a triste noção de que o jovem não pensa por si e não tem opinião.

– Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem, selvagem.

É importante lembrar que as escolas desde o século XIX, servem ao ideal da produtividade e de acordo com as análises de Michel Foucault, são espaços de docilização dos corpos, que devem se adaptar à normalidade de uma conduta servil e sempre produtiva, pois é na ação que “aprimora” o indivíduo, que reside a potência da dominação do adulto sobre o jovem e que remonta a noções muito antigas de que o jovem é por natureza desorganizado, improdutivo, egoísta e despolitizado. Nesse sentido, o movimento desses jovens rejeita o papel que lhes é atribuído, sendo claramente um movimento contra qualquer doutrinação.

– Veja o sol dessa manhã tão cinza.

Em muitos dos espaços apropriados pelos estudantes, foram criadas comissões que organizam o micro-cosmo social e que cuidam de questões importantes para o sucesso do movimento, como as comissões de comunicação, de limpeza, de alimentação, entre outras. Isso demonstra organização, trabalho, planejamento do tempo e do espaço de forma criativa, algo extremamente desejável pela sociedade do nosso tempo e que deveria ser parte das aprendizagens importantes das escolas.

– A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.

O tempo integralmente útil é uma prescrição importante na visão de Michel Foucault e Giles Deleuze para a conservação e manutenção do controle sobre os sujeitos e advém, segundo eles, da estrutura da vida monástica, como se a “salvação” dependesse do que se faz do próprio tempo. Em outros termos, parece, aos olhos de parte da sociedade, que há mais sentido em continuar com uma educação ruim do que parar para reestruturar a educação.

– Então me abraça forte e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo.

As ocupações são experiências políticas plenas, que demandam autonomia e organização comunitária. São atividades, discussões que estão fora da esfera produtivista. E têm que estar. Ocupar o espaço público e tornar esta experiência expressiva é algo muito próximo do ideal democrático e parece uma alternativa aos tradicionais e inefetivos meios de ação política  que permearam a maior parte da experiência pública do Brasileiro, como o voto e a marcha, por exemplo.

– Temos nosso próprio tempo.

Muitas vezes lemos que esses jovens não sabem pelo que estão se manifestando, deixando de apresentar demandas coerentes. Precisamos considerar que todas essas incoerências são frutos de uma busca do entendimento, do lugar em um mundo que pouco oferece em termos educacionais e profissionais. Além disso, os secundaristas estão inseridos em um contexto maior, em que todos nós temos sofrido de uma falta de clareza em comunicar nosso mal estar.

– Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.

Se ocupar significa colonizar, que seja então o significado a ser dado ao movimento que busca a apropriação da escola pelos seu principais sujeitos.

– O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido ninguém prometeu.

Não estão sozinhos: não deveriam estar sozinhos. Mas os nossos jovens têm mostrado que sabem muito bem dar conta do agir político que nosso tempo os impõe.

– Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens, tão jovens.

 

(canção citada ao longo do texto: Tempo Perdido, Legião Urbana / Fotografia: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/29/politica/1477751113_934694.html)

Um comentário sobre “Nem foi tempo perdido: as ocupações nas escolas – por Murilo Resende, Michael Gonçalves e Fernando Chuí

  • A mim parece estarmos a assistir novas configurações políticas como os movimentos de ocupação pelo mundo, o Siriza grego e o Podemos espanhol.

    Novas dinâmicas políticas que nascem dos jovens (como sempre, aliás) vão impregnar os tempos que estão por vir.

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