Notas sobre o lutador Conor McGregor: um herói à moda antiga? – por Fernando Chuí

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O lutador irlandês Conor McGregor busca nesta noite um feito inédito: unificar dois cinturões de categorias diferentes ao mesmo tempo no UFC. Explico, para quem não acompanha lutas: Conor é o maior fenômeno da história do mma, recebendo de longe as maiores bolsas e as maiores audiências; somente neste ano terá arrecadado mais de dez milhões de dólares – algo como quase 40 milhões de reais.

Conor McGregor foi esculpido em bronze pelo artista francês Jean Baptiste Seckler, qual estátua greco-romana. Serviu recentemente como imagem para o vilão do super hit dos games Call of Duty. Já faz parte do universo de ícones pops do século XXI.

Todavia, Conor não tem nada de Rocky Balboa. Nada de humildade, nada de bondade e de fair play. O lutador irlandês é absurdamente narcisista, ostentador de ternos, carros e dinheiro, bullyer deliberado de seus oponentes. Tudo isso seria de fato bastante reprovável, não fosse um fator que muda todas essas relações: trata-se do universo da luta. Nesse mundo não há como se negar que ao espectador dá-se uma espécie de suspensão moral. A luta profissional é possivelmente o único espaço no mundo contemporâneo onde a violência física efetiva contra o outro e a intimidação verbal têm sentido, enquanto jogo. Desde Muhammad Ali fala-se de um lutador entrar na mente do adversário, vencer a luta mentalmente. Abatê-lo fisicamente, mas também mentalmente, verbalmente – é o que Conor prega em suas entrevistas. Assim se dá a suspensão moral: um entretenimento que se faz como espécie de reality-game, onde sobrevive aquele que possui mais fortes corpo e mente. Ao final de meses de ofensas pessoais e de uma batalha física sangrenta, os oponentes sorriem, se abraçam e se congratulam. Nesse jogo destaca-se Conor McGregor e podemos nos perguntar do porquê.

Conor McGregor encontra seu sucesso espelhado nos antigos conquistadores romanos. Ou mais além, nos antigos heróis gregos. Há uma distinção clara entre o herói grego da antiguidade e o herói cristão da contemporaneidade. Podemos sintetizar a diferença do ponto de vista moral. O herói grego buscava vaidosamente feitos grandiosos – ou “hercúleos” – em busca de reconhecimento histórico de seu nome, enquanto que o herói cristão busca a salvação da humanidade por meio de seu próprio sacrifício. É a diferença entre Aquiles e Jesus Cristo. Hércules e Super-homem. Vejamos duas definições do verbete “herói” da notória enciclopédia Larousse Cultural: Herói s.m. (Do gr. e lat. heros) 1. Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados. – 2. Aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra. – (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, v. 12, p. 2954). É exatamente como se impõe Conor McGregor. Fala em conquistas, em feitos grandiosos, em entrar para a história. Fala sempre em nome de si, como Aquiles diante de Tróia.

Conor se comporta como um general romano da antiguidade. Entende que deve derrubar o homem à sua frente como mais um território a desbravar. Faz isso por uma razão: sua filosofia de guerra. Tudo soa impulsivo e passional embora não haja como não imaginar que tudo seja parte de sua estratégia de guerra. Lembremos que, diferente das guerras modernas, os generais romanos encabeçavam as guerras junto a seus exércitos. Há um quê de antiguidade no estrelato do UFC. Assim como generais romanos – diferente dos chefes de Estado de hoje que comandam exércitos à distância – Conor traz os louros da vitórias de batalhas que ele mesmo travou com seu próprio corpo.

Até mesmo a expressão do pensamento de mcgregor se assemelha ao de um filósofo antigo do oriente, como se reeditando textos como “A Arte da Guerra” de Sun Tzu. Como quando afirmou no Twitter – ao responder a um lutador iraniano que havia ridicularizado seu peso – que uma faca pesava menos de uma libra, mas que poderia cortar um homem ao meio. Sua filosofia não busca a convivência cotidiana do viver juntos no século XXI, mas sim a capacidade de subjugar oponentes para conquistar novos territórios.

O caráter violento que envolve o mma levou a décadas de sua proibição no Estado de Nova Iorque. Algo que acaba amanhã na luta de Conor McGregor – após anos de batalhas políticas -, quando o herói à moda antiga Conor McGregor tenta o feito histórico de possuir dois cinturões ao mesmo tempo pela primeira vez. Isso é outra coisa que o faz notável: sua capacidade de se expor constantemente a riscos muito altos. Neste sábado irá enfrentar o campeão do pesos leve do UFC – supostamente mais forte que ele – buscando ser o único campeão em duas categorias ao mesmo tempo na história da franquia.

Na era do WhatsApp, onde o encontro é trocado pela digitação, onde espaços de convivência são desterritorializados em sites e redes sociais, onde o corpo é tantas vezes substituído por simulações como nos games – nesse mundo sem corpos concretos, o corpo em Conor Mcgregor sobressai como a base de seu império pop.

Em nenhum filme de Hollywood McGregor seria o personagem do mocinho. A não ser em épicos da história antiga. Se Andy Warhol fosse vivo não tenho dúvidas de que faria um painel com a imagem repetida do lutador irlandês Conor McGregor em diversas cores vibrantes.

(imagem: Conor McGregor esculpido em bronze pelo artista francês Jean Baptiste Seckler)

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