A nova desordem mundial – por Luis Carlos de Menezes

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A internacionalização da produção amplia exponencialmente a oferta de mercadorias e serviços, com a automação e informatização que reduz na mesma proporção a oferta de postos trabalho.

Não por acaso, essa inevitável modernização da economia de mercado faz parte de um cenário maior: o desmonte do leste europeu, o novo capitalismo de estado na China, a fragmentação da Checoslováquia e da Iugoslávia, seguidos por intervenções e conflitos no Iraque, na Líbia e na Síria, pelo reacender de fundamentalismos religiosos e de oscilações políticas em economias exportadoras de commodities, como a nossa.
E isso tudo acompanhado em tempo real por redes mundiais de comunicação.

O empobrecimento dos Donald ducks (lembre-se do pato de Disney) faz parte desse processo, e eles terem eleito a xenofobia de Donald Trump escancara a nova desordem mundial já prenunciada por Putin, Assad, Erdogan e pelo Brexit.

Será essencial enfrentar essa onda retrógrada, nesses tempos em que sunitas e xiitas se matam com torcida saudita e iraniana, multidões de refugiados navegam à deriva e se afogam em busca de alguma paz, o narcotráfico enriquece políticos ou financia guerrilhas e governos populares se desmoralizam.

Trump e tudo de ruim que ele evoca resultam desse mundo sem rumo, sem programas para desconcentrar renda, eliminar miséria ou debelar conflitos sectários. Por isso, em lugar de esperar o que ele possa ou não fazer, é preciso enfrentar a nova desordem mundial, não para defender a velha ordem, mas para conceber relações entre estados-nação e mercado global socialmente solidárias e ambientalmente responsáveis.

A frágil ONU poderia ser cenário dessa discussão, mas se os protagonistas fossem Trump ou Putin, talvez com base em sua anunciada amizade, dividissem o mundo em áreas de interesse e número de ogivas…

Sabemos que a produção atual de alimentos basta para eliminar a fome na Terra, enquanto a de armamentos basta para eliminar a vida na Terra, e reconhecemos não saber com que interlocutores conduzir essa talvez utópica proposta de diálogo, mas como disse Eric Hobsbawm na conclusão de “Era dos Extremos”, se a humanidade quer ter um futuro reconhecível não pode tratar esse milênio com as mesmas práticas e ideias de outros tempos. Quem sobreviver verá.

(ilustração: Fernando Chuí)

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