O papa é pop (e muita gente não gosta disso) – por Michael Gonçalves

img_2354

A banda Engenheiros do Havaí emplacou nos anos 80 o sucesso “O Papa é Pop” referindo-se ao papa João Paulo II, que beijava a terra de onde quer que fosse visitar e que chegou certa vez a levar um tiro; sobrevivente do holocausto, ele sobreviveu também ao atentado e ganhou todos os noticiários do mundo.  Hoje, o Papa Francisco parece atualizar o título de papa pop; seu elemento pop reside na figura simpática e inusitada de um pontífice simples, sul americano, que diminui a distância com o povo e se dispõe a falar de tudo, algo que já há algum tempo não se esperava muito dos vigários de Cristo.

Ontem, dia 21 de novembro, após o encerramento do “Ano da Misericóridia” da Igreja católica, o Papa Francisco estendeu a possibilidade de absolvição do pecado do aborto, que antes, na regra católica, apenas poderia ser cumprida por um bispo e agora pode ser cumprida pelo padre. 
O Ano da misericórdia é um ano de reflexão, oração e busca pelo diálogo proposto por Francisco, a respeito de questões que parecem ter afastado os fiéis católicos da Igreja (segunda união, não heterossexualidade, aborto, contracepção, acolhida e diversidade religiosa).

A confissão é o sacramento cristão de reconciliação do crente com Deus, por meio do qual pede perdão por aquilo que se convenciona a partir da fé que professa, como erro, como falta, passível de punição para além desta vida. 
Onde se encontra um bispo católico? Quantas das pessoas que sofrem com a consciência pesada quanto a este ato, são capazes de encontrar um bispo para poderem se confessar? A sentença do Papa foi a seguinte: “Para que nenhum obstáculo se interponha entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, de agora em diante concedo a todos os sacerdotes, em razão de seu ministério, a faculdade de absolver a quem tenha procurado o pecado do aborto” “(…) concedi de modo limitado, para o período jubilar, o estendo agora no tempo”.
 Na prática, muda que as pessoas que abortaram poderão conversar com um padre, o que para muitos católicos, coloca o aborto no mesmo nível de outros pecados, como o caso do homicídio que antes era perdoado por padres.

O papa reafirma o aborto como pecado grave na concepção da Igreja, lembrando que para esta religião, a vida se dá a partir do momento em que há a fecundação.
Muitos grupos e pessoas estão reagindo às medidas e proposições do papa. Eles lamentam que o discurso do papa Francisco seja tão voltado para a justiça social e tão propenso ao debate a respeito de regras e temas que antes eram tomados como algo rígido.
Isso tem algo a ver com a tensão ideológica que invade todos os debates nos quais estamos nos inserindo.

Muitos radicalismos, relativismos, ceticismos e estoicismos estão vindo à tona em sociedades que passam por profundas mudanças materiais e culturais, especialmente porque estamos em um mundo pautado em poucas certezas. Isso enfraquece a hegemonia de algumas religiões e cria muito desconforto dentro dos grupos, porque os debates recolocam ou refazem os valores com os quais faremos os futuros julgamentos.

O papa negou a residência pontifícia, paga a conta da sua hospedagem, mora junto a outros religiosos e trocou a cadeira e seus ornamentos ricos por outros modestos. Ele prefere não ter um esquema de segurança que afaste as pessoas. Discursou sobre o fato de que a igreja não deve estimular o ódio a homossexuais – pois, no dizer dele, quem haveria de ser o Papa para condenar?

Recentemente, Francisco afirmou aos Filipinos que católicos não deveriam “reproduzir feito coelhos” , algo que sinalizou uma possível abertura da Igreja Católica – contrária a métodos contraceptivos como preservativos e pílulas – à discussão sobre o controle de natalidade.

Não me esqueço da frase que Francisco disse ao ser eleito: “Vocês não sabem o que estão fazendo!”

(Ilustração: Fernando Chuí)
Fonte das falas do Papa Francisco: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/11/papa-prorroga-de-forma-indefinida-que-padres-possam-absolver-o-aborto.html

2 comentários sobre “O papa é pop (e muita gente não gosta disso) – por Michael Gonçalves

  • Boa contribuicaodo padre Edinei Reis: o papa é pop porque fala coisas que a Igreja já discute internamente há anos. Há vertentes diferentes de pensamento dentro da Igreja e o papa fala para o mundo de maneira simples, coisas que se pratica e pensa em muitas searas da Igreja.

  • Sim, Michael, é interessante constatarmos que o papa atual reflete uma ala mais progressista da conservadora igreja católica, algo que pode parecer uma contradição em termos, mas que, pelo que se vê, existe felizmente – para o bem de nossos tempos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *