Penso ou desisto? – por Murilo Resende

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Todo mês de novembro o Dicionário Oxford, um dos mais conceituados dicionários da língua inglesa, elege a palavra do ano para definir o espírito dos últimos 11 meses. No último dia 16 de novembro, a palavra escolhida foi “pós-verdade”. Segundo o dicionário, pós-verdade é “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.

Esse conceito já é existente no dicionário desde a década passada, mas inundou os comentários políticos depois de dois eventos políticos no mundo hemisfério norte: A vitória da opção pela saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) e a eleição de Donald Trump para presidência dos Estados Unidos.

Assinalar esse termo significa, em maneira simples de dizer, que no mundo político circula inverdades, que nós sabemos disso e mesmo assim “acreditamos” nessas inverdades. Diferente de uma postura racional de análise da realidade, que necessita de evidências para alguma conclusão, os indivíduos têm conformado os fatos públicos em esquemas que comportam seus próprios desejos e vontades. Há um outro termo em inglês para isso: “wishful thinking”, que em tradução livre seria um “pensamento desejoso”.

Uma compreensão de mundo racional é contra-intuitiva. Isso significa dizer que aquela opinião emitida imediatamente após a um determinado acontecimento, é baseada em senso comum e em desejos que muitas vezes revelam uma forma de relação simplória com as complexidades do mundo.

Nesse sentido, o botão compartilhar do Facebook, extremamente intuitivo, colabora com a circulação de mensagens que não são compreendidas em totalidade pelos seus divulgadores, colaborando com a circulação de inverdades e mensagens de ódio.

Claro que não podemos considerar as pessoas como uma tabula rasa ou seja, desprovidas de qualquer sentimento, afeto ou desejo. Desejos esses que alguma forma estão relacionados com essas mensagens que circulam pelas redes sociais. Os filósofos alemães Adorno e Horkheimer sinalizaram em sua obra Dialética do Esclarecimento como a indústria cultural conseguiu cooptar esses desejos. Reelaborados, muitas vezes esse desejos são devolvidos à rede para circularem livremente em forma de verdades.

A questão que se coloca é se em nosso tempo seria possível ser diferente. Quando colocamos todos para conversar com todos, sem a mediação de uma instituição, seria possível qualificar as trocas de informações entre os diversos sujeitos? Penso que uma das maiores missões de quem se propõe educar é o de lutar para requalificação dos debates que acontecem nas redes sociais.

Precisamos questionar nossos amigos e parentes se não estão confiando demais em pensamentos prontos. Há muito barulho, e esse barulho pode produzir um vazio de pensamento. Nesse sentido, a racionalização de determinadas questões sociais fica prejudicada dando margem a ideia afirmações não verdadeiras, ou, pós verdadeiras.

A ideia de uma racionalidade tem como princípio a dúvida metódica. O ato de duvidar está na base do pensamento. E se pensamos, como disse Descartes, existimos. E como garantir o ato de pensar em uma era de certezas? Se não há dúvidas, há pensamento? E se não há pensamento, continuamos existindo como seres humanos neste século XXI?

Duvido que deixemos de existir. Mas também dúvido que não tenhamos que lutar muito para nos mantermos na condição de seres pensantes, que utilizam critérios para compreender e atuar no mundo.

(Ilustração: Fernando Chuí)

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