Morte súbita – por Fernando Chuí

img_2492Em memória dos atletas do time da Chapecoense – 29/11/2016

O sono sem sonhos, a tragédia, a estatística. O último refúgio da esperança, o medo e o medo. Estaremos inteiramente vivos ao presenciarmos a morte?

Duas notícias de morte povoaram nossos portais midiáticos por esses dias: o falecimento de Fidel Castro e a queda do avião do time da Chapecoense na Colômbia. Mortes que se opõem como conceitos distintos e possivelmente complementares.

A morte de Fidel não nos atinge como dor; não empatizamos. Tão somente nos inclinamos diante dos aspectos ideológicos envolvidos em sua trajetória enquanto personagem da história contemporânea. Em sua morte, há por fim celebração: dos que o amaram, celebrando seus feitos em busca de ideais igualitários; dos que o odiaram, celebrando o fim de seu domínio simbólico para as ditaduras da esquerda. Fidel sofreu a boa morte – aquela que encerra o ciclo, que conduz a conclusões: aquela que fecha a parábola.

Recebia o nome de “morte súbita” a regra de encerrar-se uma partida de futebol na prorrogação quando algum dos times fazia o gol. De tão cruel com as torcidas perdedoras, essa prática acabou banida dos campeonatos internacionais. A dor era imensa – e tratava-se somente de um jogo.

A morte súbita dos jogadores da Chapecoense, essa nos espanta – em seguida nos preenche de pavor. Porque nenhum de nós remete a morte de Fidel à nossa própria, mas todo mundo pode imaginar a possibilidade de estarmos ou nossos entes queridos naquele avião. Porque cada jogador que estava em seu auge nos representa no auge que assumimos de cada momento intenso de nossas vidas. A morte de uma figura histórica em idade avançada fecha a parábola de uma vida desejável, enquanto que a morte súbita de um grupo de atletas em ascensão nos lança ao abismo da existência.

Se temos da vida a única certeza de morrermos, a grande interrogação que nos redime será sempre a de não sabermos quando. Por isso, a morte súbita é insuportável. E o fato insuportável tem uma única função na vida humana: tornar mais suportável todo o resto de agruras que envolve nossa existência surreal.

Fidel, descanse em paz. Contudo, pelos jovens promissores do time da Chapecoense, por algum tempo todos nós não descansaremos e nem teremos paz. Pois, qual filme mudo, cicatriz ou tatuagem de guerra, a morte súbita dos jovens atletas projeta em nossos ossos a infame permanência do absurdo.

(imagem: Twitter)

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