Vamos falar da dor? – por Michael Gonçalves

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No mundo da enfermagem, discute-se que a dor seja o 5º sinal vital, depois da temperatura corporal, do pulso, da respiração e da pressão arterial, pois muitas vezes, o indivíduo que parece inconsciente reage à dor. Acho engraçado que nas academias se fale tanto de no pain, no gain (sem dor, sem ganho) e que nos hospitais, a diminuição da dor seja um padrão nos procedimentos.

A dor aparece como tema de Baudelaire, Schopenhauer, Shakespeare e de tantos outros pensadores que perscrutaram a alma humana. A dor na existência humana é uma noção vital, que aparece no primeiro momento da vida com o feliz momento do choro da criança, bem como está dramaticamente ligada à ideia do fim da vida.

A dor é algo com que convivemos ao longo da vida e me parece um terreno escorregadio e sensível, inclusive porque se dialoga pouco sobre isto. Creio que suportar a dor em alguns sentidos possa ser algo interessante, bem como administrá-la quando possível.

Acusa-se nosso tempo de hedonista, ou seja de ser uma época em que se cultua o prazer como princípio maior; nesse sentido as pessoas fugiriam constantemente de toda expressão do sofrimento.

A dor é a experiência possível pela interpretação do sistema nervoso dos estímulos dos nossos sentidos; por isso, é entendida de forma muito subjetiva, pois considera-se que todo indivíduo sinta dor, mas um não consegue compreender exatamente como é a dor do outro.

Por analogia, podemos partir de referências pessoais, mas mesmo estas referências são muito variáveis. Muitas vezes me deparo com esta disparidade de compreensão quando digo às pessoas que tendo a resistir à dor, que evito tomar remédio para dores de cabeça ou mesmo no corpo, e a maior parte das vezes, alguém emenda: Você está louco, toma logo este remédio! – diz isso enquanto saca o analgésico.

Tende-se a manipular quimicamente o corpo para que minimize a dor, exceto nos partos naturais que muita gente tem chamado de parto humanizado. Quando se trata de qualquer cirurgia ou intervenção médica, minimiza-se a dor. Porém, quando se trata da mãe, a virtude é aguentar o trabalho de parto com dores algumas vezes terríveis, por horas e horas. Porque a intervenção ao natural serve para prolongar a vida e o bem estar, mas quando se trata do início da vida, a natureza tem que seguir seu caminho? Isso me parece um argumento estóico (segue o curso da natureza!) que serve para isto e não para aquilo.

Eutanásia e ortotanásia entram nesta dinâmica, pois a discussão sobre o sofrimento é bem abstrata até que se passe pela experiência de um ente querido agonizando.

Jovens e adultos se mutilando e buscando diversas experiências de dor e fetiches como sufocamento, espancamento, penduramento em ganchos, body modifications dolorosas como as escarificações – mas não, não se fala sobre isso abertamente.

É importante não negar, não tornar tabu a dor e a busca pelo cessar dela, pois muitos comportamentos estão muito ligados à intervenção sobre o corpo. Religião, técnicas de respiração e meditação, drogas e muitas ações humanas estão migrando das representações mais comuns para extremos, tanto do banal, quanto da total negação da dor. Isso pode gerar indivíduos que não conseguem enfrentar a experiência dolorosa ou que muitas vezes não empatiza diante da dor do outro.

Por isso, ao invés de respostas, um convite ao diálogo: vamos falar da dor?

(Ilustração: Fernando Chuí)

Um comentário sobre “Vamos falar da dor? – por Michael Gonçalves

  • Meu caro amigo,meus parabéns! Seu texto é de uma sensibilidade tamanha e providencial em tempos tão obscuros em que cada vez mais,anseiam pela imunidade. A dor tem muito o que falar e precisa ser ouvida.abraços.

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