Indignados – por Guappo Sauerbeck

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A aprovação de emendas no congresso da noite para o dia é motivo de justa indignação popular. Isso me faz lembrar dos “Indignados” na Espanha. Ficaram conhecidos como “indignados” os manifestantes espanhóis que em 2011 protestavam pacificamente – inicialmente através das redes sociais e, mais adiante, invadindo as ruas. Eram apartidários e reivindicavam mudanças sociais.

Os “Indignados” propunham uma mudança no sistema político, diminuição dos privilégios dos governantes, respeito pelos direitos básicos como habitação, saúde e educação sempre com decisões discutidas com representação popular e a favor da sociedade.

Aqui no Brasil, copiam-se as panelas da Islândia que tinham por objetivo regular a extravagância financeira que devastou o país em 2008. Após o “protesto das panelas” o país – Islândia – retomou seu crescimento e a economia especulativa com altas dívidas voltou para o controle do governo. Foi feita com imensa participação popular a reforma política e constitucional. No Brasil, o setor financeiro transita paralelamente pela crise econômica com altíssimos lucros e com pouca regulamentação.

Na Bolívia, camponeses e indígenas se mobilizam agora pelos hidrocarbonetos de seu país e se revoltam com a privatização da água. No Brasil, o petróleo precisa trazer benefícios para o país e não há pauta sobre esse assunto nas manifestações.

Nossos índios não são tratados como os Mapuches na Argentina que conquistaram parte do seu espaço sócio-cultural depois de muita luta. Os nossos foram/são massacrados pela ganância sistemática dos exploradores de territórios de ontem e hoje, e através da mídia sequer ficamos sabendo de nada.

Pautas anti-globalização não estão presentes em nossas passeatas, enquanto no México os Zapatistas de Chiapas realizam seus protestos A respeito desse tema desde os anos 90.

No Equador, a transformação ocorre lentamente, desde os protestos populares de camponeses e indígenas de 2007. Após tantos conflitos, oligarquias que estão no poder no país já deixam de dominar alguns setores da sociedade.

Na Colômbia alguns acordos entre governo e FARC podem amenizar a disputa sangrenta com os paramilitares. No Brasil, nenhuma mudança econômica vem sendo implantada; vemos sim traços de uma filosofia neoliberal, refletida em uma política que privilegia os setores financeiros, propondo distribuição desigual de impostos, enquanto diminui investimentos em saúde e educação.

Exigências anti-globalização são reprimidas violentamente desde 30 de novembro de 1999 em Seattle e talvez a repressão aos estudantes seja uma continuação dessa tendência.

Protestos pouco pontuais com pautas genéricas como o fim da corrupção – e a ausência de pautas específicas – não contribuem de fato para a luta democrática. Curiosamente, temas atuais como a perigosa PEC 55 nunca estão presentes nessas manifestações.

Quando grupos se organizam no sentido de pautas particulares, os protestos costumam ser minimizados pela mídia brasileira. A ocultação das pautas políticas particulares em prol de um discurso generalizante costuma igualmente ocultar suas premissas ideológicas.

Seguimos indignados, mas penso que poderíamos aprender com a experiência dos “Indignados” espanhóis que se reuniam na praça Puerta Del Sol para discutir os verdadeiros significados da democracia, para assim quem sabe trazermos à tona ideias e práticas que nosso sistema político dificilmente implementará de forma espontânea.

(fotografia: Júlio Albarran)

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