A Nova Desordem Nacional – por Luis Carlos de Menezes

img_2633

Nossa república já teve muitas crises, como as que antecederam ao suicídio de Vargas, à renúncia de Jânio, ao golpe que depôs Jango, ou ao afastamento de Collor, mas a crise atual talvez supere as demais em desesperança.

Por um lado, o frágil pretexto para o impeachment de Dilma não credencia o novo executivo, ou seu legislativo de barganha, para enfrentar o caos econômico herdado. Por outro lado, o partido deposto, desmoralizado por escândalos e traído pela base fisiológica que sustentou, votou junto com seus traidores pela anistia de crimes eleitorais.

Aliás, é tão grande a lista de políticos presos, processados ou acusados, que a dúvida é saber quem estaria fora dela. Isso ilustra o cenário político da nova desordem nacional, cujas raízes são mais profundas e agravadas pela nova desordem mundial.

No plano doméstico, impõem-se taxas de juros obscenas para controlar a inflação devida à ampliação do consumo não acompanhada da ampliação na produção. Enquanto isso, nossa receita sustentada pela exportação de commodities encolheu junto com a demanda internacional, levando a um estado falido, ao qual só ocorre cortar gastos públicos e reduzir seguridade social.

E ao trocar mão de obra por sistemas e autômatos, a indústria ao se recompor não devolverá postos de trabalho a milhões de desempregados, ampliando a marginalização, a demanda por assistência social e a insegurança urbana.

Seria natural que as perguntas hoje formuladas fossem sobre como fomentar a recuperação econômica, por investimentos em infraestrutura, pelo aperfeiçoamento do sistema educacional, pela busca de novos parceiros internacionais, pelo financiamento de pequenas empresas de serviços, ou pela articulação dessas alternativas.

Em vez disso, as questões que nos afligem são sobre quanto durará um executivo sem rumo nem respaldo, associado a um legislativo com medo de cadeia, observado por um judiciário que morde e sopra, para administrar conflitos.

Acontece que democracia não se faz sem esses três poderes e, com ou sem partidos e lideranças confiáveis, será essencial eleger novo governo, depois de nova assembleia nacional constituinte, para a qual será preciso preparar teses e mobilizar iniciativas populares. E para que o descaramento já se afaste do poder, é hora de convocar toda a coragem e todo o fôlego para, num grito que atravesse o continente, dizer basta a essa já velha nova desordem nacional.

(desenho: Fernando Chuí)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *