O amor sempre foi líquido – por Fernando Chuí

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Amor eterno, amor verdadeiro, alma gêmea, cara metade, até que a morte os separe, se não era eterno é porque não era amor. Dos textos medievais ao samba de raiz, essas legendas pontuam a longeva cultura do amor romântico.

Hoje fala-se de sua desilusão, de um mundo onde pessoas não se envolvem mais umas com as outras, e cujo individualismo dificulta os vínculos afetivos. Viveríamos hoje o tal amor liquido. Mas o que viria a ser isso?

O filósofo Zygmunt Bauman é constantemente citado por pessoas – de redes sociais a redações do Enem – por seu livro “Amor Líquido”, ao tratar nele da fragilidade das relações humanas no mundo contemporâneo.

De fato é seu livro mais popular, e tem seu valor ao discutir as formas como o consumismo voraz do mundo capitalista e tecnológico nos leva a buscar relações cada vez menos sólidas e ao mesmo tempo mais efêmeras. Reflete sobre a distância que se estabelece entre nós na vida veloz das grandes cidades e as redes sociais, bem como na baixa expectativa sobre eventuais compromissos amorosos. A ideia de consumismo e liquidez das relações se contraporia ao compromisso e à solidez de relações humanas de antigamente, tendo referência na visão romântica alimentada em nossa cultura desde o século XII e pelo casamento católico que traz em seu rito a promessa de eternidade.

Ok, justa leitura. O texto de Bauman é importante e pertinente quando aborda nossa fraqueza enquanto sociedade individualista e consumista. Aborda muito propriamente a delicada questão hoje tão atual da xenofobia e da exclusão do outro pelo olhar narcísico.

No entanto, no sentido da compreensão – que observo muito comum – de que o amor no mundo contemporâneo teria perdido a solidez de outrora, gostaria aqui de levantar alguns questionamentos. Afinal, o amor é pouco sólido hoje comparado a qual versão de si?

Percebamos que a idealização do amor – refletida nos textos medievais sobre o amor cortês até nossos dias – correspondeu à idealização da imagem da mulher. Divina ou diabólica, a mulher foi retratada por séculos pelos homens, ao mesmo tempo que acorrentada à função materna na vida concreta. Impotentes na política, na arte e no campo da decisão sobre seus próprios desejos. Não por acaso, foram as mulheres que tanto se mantiveram presas ao ideal romântico. Casar e ter filhos era por fim um fator de sobrevivência no mundo patriarcal. Vivíamos a solidez de relações que aprisionavam a mulher ao papel de mãe e esposa fiel, enquanto dava aos homens o direito tácito a prostíbulos e amantes.

Há também a crítica que nosso  consumismo hoje se projeta no amor, ao tratarmos nossas relações amorosas como quem faz compras no shopping center; que aplicativos de paquera tratam hoje pessoas como objetos de compra, verdadeiros cardápios humanos. Pode ser, mas vejamos outras épocas.

Pensemos nos casamentos que se realizavam quando famílias negociavam suas filhas como forma de fortalecer negócios. Pensemos a solidez de relações amorosas cujo compromisso se estabelecia por intermédio de anos e anos de cartas até o encontro no dia do fechamento do acordo nupcial. Qual forma de lidar o amor como capital parece pior?

Ora, a solidez de outrora não era do amor, mas das instituições. Não era o amor que era sólido, mas o conceito de família nuclear – pai, mãe, filhos, etc. O que era empedrado era o domínio ideológico.

Observo cada vez mais a formação de casais que se encontraram em aplicativos como Tinder ou Happn. Boa parte deles após os trinta, quarenta, cinquenta anos. Porque líquido, o amor se redescobre novo em forma e conteúdo após outros amores.

O amor, se hoje pode ser pensado como líquido, é porque sempre o foi. Líquido, volátil, em movimento. Por um mundo em que não sejamos regidos pelo controle social de nossos corpos; por um mundo em que homens e mulheres possam ser gays, lésbicas, travestis, etc; por um mundo em que mulheres não voltem a ser serviçais submissas de seus maridos e amantes e possam amar a quem e a quantos quiserem; por um mundo em que pessoas em qualquer idade possam recomeçar e reviver o amor: nesse mundo líquido, o amor líquido é o melhor possível. Porque se adapta aos tempos como o líquido ao recipiente de sua época.

E o amor falsamente sólido pelas instituições empedradas era representado por casais que permaneciam juntos pelo negócio familiar; homens que casavam por não poderem assumir sua homosexualidade; homens e mulheres que não se separavam pela única razão de terem medo de nunca mais se afastarem do estigma do divórcio amaldiçoado pela sociedade; mulheres que se mantinham casadas por medo da violência de seus maridos.

Pois o que era sólido não era o amor, mas o controle social dos corpos – sobretudo o corpo das mulheres – por meio da cultura do amor romântico. Pois o amor em si sempre foi líquido. Em contratos frios e desumanos, se congelava ou por fim se evaporava; e em relações de afeto e respeito, se mantinha líquido ao mudar de forma a cada estação.

Bruce Lee, o astro chinês do cinema e do Kung Fu, louvava a natureza líquida da água como inspiração para adaptação às novas situações. Pois o que se liquifaz agora não é o amor, mas a capacidade de nos adaptarmos aos novos modelos trazidos pelo tempo.

(Desenho: Fernando Chuí)

2 comentários sobre “O amor sempre foi líquido – por Fernando Chuí

  • Fernando, me identifico muito com oq vc traz nesse texto. O amor romantizado dos relacionamentos de outrora não era, de forma alguma, mais saudável do que o amor dos relacionamentos vividos atualmente. Hj a gnt tem mais liverdade pra refletir sobre as relações q se estabelecem, perceber os reflexos (muitas vezes sutis) resultantes da forma distinta q meninos e meninas ainda são criados. E como se relacionar bem com os outros se antes não entrarmos em contato com oq se passa dentro de nós mesmos…

    • Verdade, Rafaelle, descobrir o que se passa dentro de nós, descobrir por fim quem somos hoje se dá como uma questão mais essencial do que reconhecer o amor da vida. Bjs e volte sempre ao Fresta 😊

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