Sobre ideias de estimação – por Michael Gonçalves

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Mudar de opinião é uma experiência difícil para a maioria das pessoas, pois equivocadamente há a percepção de que isso pode representar um sinal de fraqueza. E muitas vezes é justamente o contrário. Mudar de ideia pode significar processo de evolução, uma forma de engrandecimento. O sábio reconhece que tem mais a aprender que ensinar.

Estamos chegando ao final do ano e promessas de mudanças pessoais são assunto comum nos espaços cotidianos. Muita gente associa o novo ano como marco simbólico ao seu ciclo pessoal e busca se comprometer com mudanças de atitude como novas dietas, novos trabalhos, novos hobbies, vida nova…

Os propósitos de mudança de ações comumente fracassam porque carregam uma intenção a princípio positiva, mas que só pode ser realizada se vier acompanhada de alguma mudança de pensamento. Por exemplo, não dá para emagrecer sem mexer no conceito e no planejamento da alimentação e/ou do gasto energético com as atividades do dia a dia; não dá para se tornar um profissional melhor repetindo tudo aquilo que sempre se fez – o máximo que se consegue é a manutenção do que já se conquistou. Para tanto é preciso reestruturar ideias: soltar a coleira de suas ideias de estimação.

Por ideias de estimação tomo aquelas pelas quais as pessoas têm apreço e ficam cristalizadas na cultura do indivíduo. Essas ideias não existem mais na mente dos indivíduos por uma razão atual ou fruto de pensamento, mas por uma espécie de afeição a elas. Por muitas vezes não faz sentido permanecer mais com aquela ideia, mas as pessoas insistem nas mesmas pelo puro apego a velhos costumes de pensamento.

“Drogado é vagabundo. Esses imigrantes tomam nossos empregos. Esquerdista é petista e petista é ladrão. Na ditadura que era bom, a gente andava com segurança pelas ruas. Tem é que matar todo este povo de direita. Não tem que discutir sexualidade ou gênero na escola, porque se não, a gente ensina eles a serem gays. Não tem jeito, se alguém entra na política, tem que se sujar. Não discuto religião. Religiões afro-brasileiras são macumba e isso faz mal”.

Pois é, tem muita gente por aí tratando suas opiniões como se fossem objetos/seres de estimação, coisas que são alimentadas, cuidadas e tratadas com carinho somente nas horas que lhes convêm.

Uma boa ideia pode ser testada e resistir, permanecer, mas precisa ser testada de modo que ela evolua, cresça. É um exercício filosófico importante duvidar do que somente parece certo.

Toda mudança é dolorosa, conflituosa de algum modo, pois consiste no enfrentamento de ideias ou realidades dadas, prontas, e temos a tendência à conservação; mas somente usamos a palavra desenvolvimento quando algo de fato muda. Chamamos de evolução.

A natureza do tempo é o movimento; a transformação, o fluxo constante, como já diriam Heráclito e Hegel. Portanto, não faz sentido permanecer sempre no mesmo lugar e lutar para isso, pois o esforço de conservação – apesar de ser também parte importante da existência das coisas – precisa de maleabilidade. O que resiste rígido demais tende quebrar-se.

Novos tempos exigem novos valores, novas ideias, novas aspirações e novas formas de existir; mas o velho, muitas vezes insiste em travestir-se de novo: novos fascismos, novos racismos, novos machismos, novas formas de exploração e exclusão, novas formas de controle do parceiro, novas taxas, novos moralismos que são os mesmos conceitos que o Espírito do Tempo sugere deixar para trás, mas que parte importante da sociedade insiste em guardar numa caixinha puída, bem pertinho do coração.

Enfim, se pudermos sugerir algo para que se mude no próximo ano, é que as pessoas estejam mais abertas, mais dispostas a pensar diferente, a dialogar e a por a teste mais vezes as suas convicções, para que não se tornem meros acumuladores de certezas. Para que deixemos de nos relacionar com nossas velhas ideias como quem leva seu cãozinho ou sua bicicleta favorita para um passeio pela cidade no domingo de sol.

(desenho: Fernando Chuí)

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