O império do efêmero e do imprevisível – por Luís Carlos de Menezes

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É secular a tradição de passagens de ano serem momentos em que, além de festejar e desejar saúde e prosperidade, se costuma prospectar tendências para o novo ano, sobre a evolução da inflação, do desemprego e das taxas de juros, sobre o desenrolar de guerras e conflitos, o desenvolvimento de alianças e suas áreas de influência.

A atual passagem, no entanto, não se presta a previsões, no Brasil ou no mundo, pois 2017 recebe um notável legado de incertezas de 2016, cujas reviravoltas desmoralizaram analistas experientes, pois tudo o que parecia estável se mostrou efêmero, dando lugar a tudo que parecia improvável.

Quem pensaria que a Inglaterra se afastaria da Comunidade Europeia? Ou que os EUA elegessem presidente alguém sem histórico político, que esconde sua declaração de renda, orgulhoso de burlar o fisco e de usar qualquer mulher com sua fortuna? Ou que a Rússia, economicamente frágil e politicamente isolada, exibisse protagonismo geopolítico em ação militar no mundo árabe?

Quem esperaria ver deposto e na cadeia quem, na deposição de presidente eleita, comandou parlamentares hoje temerosos de também serem presos? Ou pensaria que, mergulhado na pior recessão de sua história, o país não tenha a propor nada além da limitação de gastos?

E se foi impossível prever 2016, que se dirá de 2017? Que destino terão milhões de árabes que buscaram a Europa em fuga da miséria e da guerra? Os atentados, por radicais islâmicos, reforçarão nacionalistas xenófobos a fechar fronteiras e expulsar migrantes? A globalização, que parecia definitiva, estará ameaçada por novos nacionalismos?

E nacionalistas, como Putin e Trump, se são amigos, anunciam mais armas nucleares para ameaçar quem? E se EUA e China se voltarem para seu mercado interno, como isso impactaria a economia brasileira exportadora? E como sobreviverão, no Brasil, os milhões de desempregados e subempregados, se sua condição for estrutural, não conjuntural?

E como, diante disso, será enfrentado o crescimento da degradação social e do crime organizado?

Num simples parágrafo, tantas questões decisivas para encarar o novo ano, todas perfeitamente sem resposta. E se hoje há tantos refugiados tanto quanto na Segunda Grande Guerra e muitos atentados como que o que deu pretexto à Primeira Grande Guerra, mais do que em outros momentos da história, talvez se viva hoje sob o império do efêmero e do imprevisível.

Compreender isso pode ser a sabedoria necessária, não para pretender se antecipar aos fatos, mas para ações solidárias quando ocorrerem imprevistos. E para quem precisar de certezas, eis uma: eles virão.

(desenho: Fernando Chuí)

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