Retrospectiva ou perspectiva? – por Murilo Resende

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Eu não sei quando começou o hábito de fazer retrospectivas em formato de programas televisivos e acabei desistindo de pesquisar. Acredito que, de alguma forma, é um último suspiro das emissoras de televisão em uma tentativa de pautar nossa visão de mundo; nesse caso, nossas lembranças de um passado coletivo recente.

As retrospectivas geralmente são setorizadas: retrospectiva no Brasil, retrospectiva no mundo, retrospectiva na música e assim por diante. É como se o mundo fosse organizado em caixinhas, essa forma de memória que divide nosso passado coletivo.

Além dessa organização por temas, há essa organização por anos. Retrospectiva 2016! Puxa, esse ano de 2016 foi difícil! Ninguém entendeu nada!

É como se 2016 não tivesse nada a ver com 2015, com 2010 ou como 1964. Esquecemos que vivemos em um mundo construído historicamente por nós mesmos, os seres humanos. Construído por escolhas, embates e fugas.

Pior que dividir nossa vida em caixinhas de anos passados, também particionamos nossa vida em caixinhas futuras. 2017 vai ser melhor! Melhor como? Não sei, melhor que 2016…. Mas, qual a perspectiva? Se dividimos tanto nosso tempo, organizamos em caixinhas separadas, como esperar um 2017 único e melhor. Melhor para quem cara pálida?

Vivemos uma crise de perspectivas. O ano que passou foi confuso. O que virá é obscuro. Na verdade, transformamos “o ano” nessa instância superior, que decide nossas vidas.

No fundo, trata-se de recuperar a nossa historicidade, de acreditar que 2017, 2018 e assim por diante será bom, ruim ou péssimo, diante de nossas escolhas para a própria humanidade.

(desenho: Fernando Chuí)

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