Sense 8 e a ideia de empatia – por Michael Gonçalves

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As irmãs Wachowski ficaram conhecidas por criarem o que entendo como o filme de ficção científica mais interessante dos últimos 20 anos: Matrix. Na época entretanto elas eram conhecidas como irmãos Wachowski. Essa mudança ao transgênero ocorreu por etapas. Primeiro Larry que se tornou Lana; depois Lilly – até então Andy.

Após a transformação, elas agora propõem uma discussão particular aos tempos atuais. A série das irmãs Wachowski Sense 8 (leia sense eight) é um exemplo de obra que atua como metáfora filosófica, discutindo empatia por meio do retrato de um mundo de conexão não só material, no sentido global, mas de consciência.

Basicamente, empatia é a capacidade de um sujeito de se colocar intelectualmente e emocionalmente no lugar do outro ou de compreender um objeto, qualquer que seja, como se referisse a si próprio. Falo em desenvolver porque creio que todos têm potencial neste sentido, alguns mais, outros menos, mas podemos desenvolver mais.

O programa retrata 8 indivíduos que não se conhecem a princípio e que estão vivendo situações muito diversas em sua vida íntima, profissional, amorosa, familiar, e que de repente presenciam uma mesma cena em suas mentes e a partir deste momento, estão conectadas. Elas entram em uma conexão de pensamento, sentimento, memória e experiência. As cenas e situações são de tirar o fôlego e difíceis de explicar, mas quero me ater à possibilidade de estarmos diante de uma história na qual indivíduos não só imaginam o que é ser e estar no lugar do outro mas são pessoas que passam por toda a complexidade do que é estar de fato no lugar do outro, vendo, sentindo a angústia e/ou a delícia de ser/estar no lugar do outro.

Como seria o prazer da transsexual lésbica? Como seria lidar com os paparazzi, quando se é o maior astro de um país e se esconde um segredo perigoso para a carreira? Como seria ser preterida nos negócios de família por ser mulher? Como é estar prometida a um homem que não se conhece, quando se está apaixonada por alguém que não conhece bem, também? Como seria ganhar a vida fazendo lotação em Nairobi?

Os 8 personagens sabem e quanto mais convivem, mais se conhecem e se ajudam uns aos outros, criando uma família que surge não do laço sanguíneo, mas da familiaridade que constróem a partir das trocas de experiências. Eles não são uma comunidade material, mas uma comunidade em termos de consciência.

Sense8 se propõe a nos colocar em exercício de abertura constante, pedindo que não julguemos e nos conectemos com estas histórias tão diversas.

O inimigo desses “sensates” (nome usado na série para designar as personagens) é alguém que entra na cabeça deles e sussurra o tempo todo, que eles não podem se conectar assim tão profundamente, que sugere o isolamento, uma espécie de individualismo, sempre com o pretexto de que se resolve o problema coletivo acabando com o seu sofrimento particular, ou seja, dizendo que será melhor para todo mundo se for feito o que lhe traz maior conforto, sugerindo que ninguém deveria fazer sacrifício pelo outro ou que não deveria abrir mão de algo.

Estamos diante de um mundo que poderia debater e fazer escolhas com mais empatia e menos fechamento. Politicamente, o exercício de conectar com os menos favorecidos está meio fora de moda e a proposição do momento em muitas searas é o merecimento, que me parece um conceito absolutamente vazio se não tivermos uma análise mais cuidadosa.

Assistindo ao especial de Natal da série, exibido dia 23 de dezembro passado, pensei bastante sobre empatia e sobre a diferença que faz termos consciência de que o outro é diferente e que diferente não é pior ou melhor, mas apenas com outras necessidades que não são as minhas e mais ainda, com potências que não são as minhas.

Os projetos que podem realmente fazer diferença estrutural na vida das pessoas são aqueles que conectam e não os que separam. A poética da série reside em retratar a evolução humana como uma espécie de abertura para o outro.

(desenho: Fernando Chuí)

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