Discutindo o gosto: o último refúgio do racismo – por Fernando Chuí

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O Oscar, a maior premiação da indústria do cinema, não teve indicada nenhuma pessoa negra no ano passado, algo que gerou polêmica na mídia e reações negativas por parte de artistas e movimentos raciais. Diga-se o que quiser, mas o fato é que os negros e negras não bateram no gosto da academia em 2016. No gosto.

– Eu nunca fiquei com uma pessoa negra. Não é preconceito, não. Só não me atrai, é gosto.

Já escutei essa frase de diversas pessoas. Mais intrigante, já ouvi isso por duas vezes de mulheres negras, provavelmente uma das classes mais segregadas em nosso mundo sectário. Nossos jogadores de futebol e nosso pagodeiros/funkeiros negros parecem igualmente ter mais gosto pelas mulheres brancas. Pesquisas afirmam que aplicativos de paquera tem em pessoas negras seu público expressivamente menos escolhido.

No momento em que o gosto da imensa maioria reflete a segregação dada socialmente e historicamente, o tema do gosto me parece essencial na discussão sobre preconceito racial.

O gosto é tema da estética, campo filosófico que trata da arte e da sensibilidade. E, por ela, podemos refletir que tudo que é estético traz em si elementos políticos intrínsecos. Em um mundo onde a lei já admite o crime do racismo, o gosto é o último refúgio dessa discriminação.

O padrão de beleza de todas as épocas e sociedades se baseia sempre na estética estabelecida por sua ala mais abastada. Por esse viés, as feições negras não representam o gosto social oficial. Exceto quando refletem a cultura do corpo sexualizado, os narizes largos, a pele escura e a boca proeminente refletem para a nossa sociedade o padrão da pessoa desfavorecida da qual aprende-se a todo instante que não devemos nutrir o gosto.

Ninguém assume seu próprio racismo. Inscrito agora como crime em nossa legislação, o racismo não tem defensores públicos, mas
agora soma crimes covardes como o caso da filha do ator Bruno Gagliasso que teve sua ofensora racial revelada pela busca policial como uma moça negra.

Gostar não é uma mera escolha. O gosto se amolda na cultura. Isso explica o discurso do preconceito na boca daqueles que em princípio são exatamente as vítimas do mesmo.

A “preferência” é, neste caso, eufemismo do racismo. Gostar de tudo aquilo que o critério comum dita pode significar o esmagamento de nossa sensibilidade. Apontar o preconceito não é difícil hoje; raro é refletirmos sobre a segregação que nós mesmos trazemos dentro de nossas predileções.

Aposto todas as minhas fichas que o Oscar deste ano reservará indicações a atores e atrizes negros. Pois, sobre tal evento, o “gosto” foi discutido, questionado e problematizado. Observar o preconceito a partir da crítica da nossa predileção estética pode ser o início de uma forma honesta de emancipação pessoal/social.

(Desenho de boneca negra usada e à venda no mercado livre: Fernando Chuí)

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