A cidade “limpa” de Dória – por Fernando Chuí

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Ao ler sobre as ações iniciais do atual prefeito de São Paulo João Dória Jr., lembrei-me imediatamente desta velha tira da Mafalda que postei acima. Nela, o cartunista Quino traz o diálogo entre ela e sua amiguinha esnobe Suzanita onde a personagem se entristece diante da miséria dos moradores de rua, dizendo que o governo deveria lhes dar trabalho, proteção e bem estar; com que a sua amiga reconhece a feiúra daquilo, mas retruca:
– Para quê tudo isso? Bastaria escondê-los.

Esse cartum resume bem as primeiras ações do novo prefeito em sua batalha contra a pichação em São Paulo. Tudo em prol daquilo que ele lança como o projeto “Cidade Linda”.

Não me parece que a substituição de linhas, letras, desenhos e cores por um padrão linear cinza possa representar o paradigma da busca da beleza em si. Cinza nunca representou o belo. Cinza é a forma encontrada pelo governo de higienização plástica das paredes urbanas.

Tal visão de beleza se baseia na ideia de limpeza e ordem – um ideal fascista, diga-se. Dória se traveste de gari para pintar de cinza grafites e pichações dos muros da cidade. Mas não é de fato o belo que o atual prefeito agora se esmera para atingir, mas sim o sentido de higienização urbana. O que se impõe é a busca pela neutralidade dos espaços públicos onde a intervenção estética dos muralistas contemporâneos trouxe “sujeira”.

Notemos que essa higienização não se reduz à luta contra pichadores, mas igualmente se dá no tratamento com os moradores de rua. Por esses dias, Dória realocou dezenas de moradores de rua instalados na região da Praça XIV Bis, no Centro de São Paulo, durante a realização dos serviços de limpeza da operação Cidade Linda. Eles foram reunidos na quadra de futebol e em um antigo estacionamento debaixo do Viaduto 9 de Julho. As pessoas que reformaram a quadra recentemente se queixam de não poderem mais utilizá-la e as famílias que agora permanecem lá dizem não ter aonde ir.

O projeto de Dória para uma cidade “linda” busca na verdade uma cidade “limpa”. Não pensa os fenômenos sociais como resultados de um sistema complexo, mas somente como ruídos diante de sua ideia de produzir uma paisagem “limpinha”, cujos problemas não se discutem, mas – como na tira da Mafalda – são escondidos.

Antes que apareçam os defensores da propriedade privada de plantão, já afirmo que não se trata aqui de apoiar atos ilegais como a pichação ou qualquer forma de dilapidação do espaço público, mas sim de buscar a compreensão dos fenômenos sociais em sua complexidade. Buscar o diálogo com as pessoas da margem em busca de medidas que nos ajudem, se não a remediar, a amenizar os efeitos de nossas mazelas urbanas – e não meramente maquiar os sintomas de uma sociedade doente.

Estamos apenas no primeiro mês de seu mandato, e as medidas iniciais de Dória balbuciam o ideal nazista da primeira metade do século XX. Foi Adolf Hitler quem aliou a ideia de beleza à de higienização social, impondo a ordem clássica diante do caos modernista. Assim como em nossos fatos atuais, deslocava para longe da visão da sociedade “higienizada” as imagens e pessoas consideradas feias, sujas e malvadas.

(tira de Mafalda: Quino in Mafalda Quotes – https://mobile.twitter.com/MafaldaQuote)

7 comentários sobre “A cidade “limpa” de Dória – por Fernando Chuí

  • Chui muito bom o seu texto sobre a bestialidade do Dória, com a higienização da cidade. Este sujeito representa o que pior dos humanos… Seus textos me alentam…
    abraSUS
    Eroy

  • Chuí, você é um gênio. A questão, que venho sempre pensando comigo mesmo, é se os governantes querem mesmo fazer algo por nós, ou é tudo propaganda. Para uma “criança” como eu, que vive numa família com muitas divergências políticas, nunca ficaram claras as intenções verdadeiras dos políticos, e se o que fazem é real ou mera máscara apoiada pela propaganda. Concordo bastante com seu ponto e espero que o blog volte à ativa total para que o debate continue.
    Obrigado,
    Leonardo Rahal 1ªF

    • Obrigado pelas palavras, Leonardo. Temos mesmo que pensar juntos sobre esse nosso momento. E a perspectiva dos jovens como você é fundamental para chegarmos a algum lugar. Abraçao!

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