Pablo Escobar, Capitão Nascimento ou meu bandido favorito – por Murilo Resende

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Um dos acontecimentos que já está dando contorno ao ano de 2017 foi a rebelião de detentos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim em Manaus, nos dois primeiros dias de janeiro desse ano. Depois das primeiras notícias, sabemos que essa rebelião foi na verdade um acerto de contas entre duas facções criminosas que disputavam o controle não apenas daquela penitenciária, mas de outras em diversas regiões no Brasil.

Das mais diversas reações públicas sobre esse(s) acontecimento(s), a discussão sobre direitos e penas de figuras fora da lei, ou a do bandido, passou a povoar comentários fervorosos em diversos canais na web. Afinal, quem são essas pessoas que estão presas? Como a sociedade deve encará-los? Como a sociedade deve tratá-los? Quem são os bandidos?

Entre os diversos bandidos, gostaria de falar dos bandidos preferidos. Não é um termo de fácil definição.

Talvez seja preciso entender primeiro a ideia de bandidos que povoaram a imaginação de uma determinada população, muitas vezes confundindo-se com heróis. São o que o historiador Eric Hobsbawn chama de bandidos sociais em sua obra Bandidos. Figuras como Emiliano Zapata e o cangaceiro Lampião seriam esses bandidos. Segundo o historiador inglês, o bandido social não possui exatamente uma ideologia, não busca transformar o mundo, mas sim colocar alguns limites à violência dos dominadores pelo uso da violência. Esses bandidos não questionam a existência das regras sociais, mas sim a obediência a elas.

Como os demais bandidos, o bandido social age fora da lei. Mas será que todos que agem foram da lei são chamados de bandidos?

Podemos tentar responder a essa questão analisando uma notícia veiculada pelo jornal O Globo no último 14 de janeiro, com o seguinte título: “Jovem morador de Copacabana é preso por roubo de carros”. Não faltaram questionamentos de diversas mídias e pessoas sobre o termo utilizado na reportagem, ou melhor, na ausência de termos como ladrão ou assaltante, uma vez que o jovem pertence à classe média carioca. Quem seria bandido então?

A ideia do banditismo também sempre esteve presente no campo da política, mesmo na ausência do termo bandido. Desde o slogan “rouba mas faz” do ex-governador de São Paulo Ademar de Barros (apropriado posteriormente pelos eleitores de Paulo Maluf) até a fala do líder religioso Marco Feliciano, que se referiu a Eduardo Cunha como o “Meu malvado favorito”. Todo bandido seria malvado?

No campo artístico, são diversas as representações do banditismo: do glamour da máfia italiana expressa nos filmes de Scorcese a canções como a do grupo pernambucano Chico Science, que questiona se banditismo é uma questão de classe ou se é a pura maldade. Como no livro do Hobsbawn, o grupo de mangue beat retoma as representações de Zapata, de Lampião e do Cangaço.

Ainda no campo da indústria cultural, acompanhamos a construção de um bandido paradigmático em uma série de televisão: Pablo Escolar. A atuação de Wagner Moura, representando o narcoterrorista na série Narcos do Netflix, mostra ao mesmo tempo sua face mais cruel e também a mais humana. Na série, Escobar é capaz de atos de terrorismo como mandar explodir um avião com dezenas de passageiros apenas para matar um oponente, como distribuir benfeitorias à pessoas carentes de um bairro pobre de Medelín. O Pablo Escobar da série acredita ser um efeito colateral de uma sociedade doente. Ele age fora da lei, mas acredita que faz isso para resistir à exploração dos poderosos. Seria um bandido social, favorito de muitos.

Outro personagem representado por Wagner Moura com grande alcance de massa também nos traz questões sobre as ações dentro ou fora da lei: o Capitão Nascimento. Personagem construído de forma a nos envolver em suas questões mais problemáticas, o policial comprometido com o trabalho, marido e pai, muitas vezes tortura e mata sob a justificativa de não ter alternativas frente a uma guerra suja contra o tráfico de drogas. Assim, a personagem do Capitão Nascimento exibe em suas ações o discurso de que o meio produz policiais violentos; um efeito colateral de uma sociedade doente. Age fora da lei, mas para nos proteger. É favorito de muitos.

Essas contradições estão presentes em nossa sociedade, que vive dentro de determinadas regras ou leis. Chamamos essa sociedade de Estado de Direito. O nosso cotidiano está repleto de exemplos de pessoas que agem fora da lei, em situações diversas. Assim, agir fora da lei nos torna bandidos?

Perguntando de outra forma, todos que agem fora da lei são bandidos, ou será que temos nosso bandido favorito?

(desenho: Fernando Chuí)

2 comentários sobre “Pablo Escobar, Capitão Nascimento ou meu bandido favorito – por Murilo Resende

  • Acho que esse é um tema bastante interessante e controverso, que merece uma ampla discussão. De preferência, uma boa conversa de boteco, onde as pessoas não tenham tantas amarras para exporem suas opiniões. No entanto, a minha resposta à sua pergunta é: TEMOS NOSSO BANDIDO FAVORITO.

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