“Queermuseu” e guerrilha estética – o fascismo apresenta nossas armas – por Fernando Chuí

Quando Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos na ditadura militar – essa mesma que o cantor sertanejo disse que não existiu – não houve de fato uma justificativa muito objetiva, sendo que suas letras não tratavam de temas a respeito do governo nem tampouco traziam referências veladas à ditadura. Tanto que mais tarde houve quem argumentasse que eles teriam sido levados por engano. Não, não havia equívoco algum. A tropicália – movimento musical liderado por eles no final dos anos 60 – trazia irreverência estética e uma promessa de transformação no campo do comportamento social, algo que incomodou as autoridades militares, a despeito de sua incapacidade de entender do que se tratava.

Na Alemanha nazista do início dos anos 40, a arte moderna foi rechaçada por meio de queimas de obras e exposições cuja finalidade era a sua execração pública aliada a ideias eugenistas.

Ao impedirem no final de semana que passou a mostra “Queermuseu” do Santander Cultural em Porto Alegre, os movimentos da nova direita brasileira se aliam politicamente à autocracia militar e à política cultural de Hitler que utilizava a expressão “arte degenerada” para expressar seu ódio à arte moderna.

Desde o final do século XIX, a arte se desfez completamente de suas feições clássicas e se dedicou até os dias atuais a apresentar modelos que desafiassem o olhar cotidiano. Picasso, Matisse, Dali, Magritte, Portinari, Lygia Clark, Warhol, entre tantos nomes que tão somente realizaram caminhos de novas possibilidades para além da perspectiva da indústria cultural – aquela que padroniza o gosto das multidões ao vício do consumo coletivo.

O que aconteceu em Porto Alegre é somente mais um sinal dos nossos tempos. A arte, enquanto patrimônio cultural, somente será aceita pelo pensamento conservador enquanto servente de velhos modelos da tradição. A arte contemporânea apresenta sempre uma outra visão – avessa ao que espera a tradição. Por isso a própria ação artística é um problema nas nossas ruas e escolas. Por isso peças de teatro são hoje barradas pela polícia. Por isso a representação de toda nudez será castigada. Por isso as escolas hoje retiram a arte de seus currículos em consonância com os projetos de Michel Temer e seu congresso amorfo.

A estética é o último dos campos da necessidade humana, bem depois da comida, moradia e da educação física, por exemplo. O fato de movimentos como o MBL agora se dedicarem a combater exposições de arte somente revela que chegamos a outro patamar no campo da repressão contemporânea: a guerrilha estética.

A arte é historicamente campo de ideologias, bem como um dos principais redutos de resistência cultural. Na idade média, por exemplo, os detentores do poder social e político – no caso, a igreja católica – sabiam que, para dominar os corpos dessa sociedade, precisariam controlar igualmente sua cultura. Do ponto de vista estratégico, a nova direita brasileira tem um ponto; assim como fez a igreja medieval, o MBL busca eliminar tudo aquilo que pode negá-lo. E a arte é de fato instrumento de risco para o plano do nacionalismo conservador que agora vemos aqui recrudescer.

Parece que nessa guerra ideológica que se nos apresenta diariamente, teremos que novamente erguer nossas armas. E elas são muito diferentes das armas de fogo e ódio levantadas pelo inimigo vigente. Precisamos lembrar que nossas armas possuem linhas, cores, gestos, palco, luz, palavras, sons e pensamento.

Mas sim, são armas e – como agora nos aponta a ação da nova direita brasileira – mostra-se como ameaça aos novos projetos fascistas em nosso tempo. Empunhemo-nas.

 

imagem: “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando Baril
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Um comentário sobre ““Queermuseu” e guerrilha estética – o fascismo apresenta nossas armas – por Fernando Chuí

  • Hoje mesmo estava debatendo com alguém sobre a imagem da capa desse artigo. Essa pessoas achava que o artista estava zombando de Jesus. Eu expliquei que Schiva é uma deusa mas não resisti a afirmar que fosse eu o autor, teria colocado revolveres, lanças e outras armas para representar todas as guerras e mortes que as religiões e suas intolerâncias nos trouxeram.

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