A forma do discurso: sobre o ganhador do Oscar 2018 – por Fernando Chuí

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(Para Ana)

Achei intrigante como vários comentadores e artigos que li sobre a premiação do Oscar para o filme “A forma da Água” de Guillermo Del Toro optaram por dizer que o ano mais político do Oscar decidiu se curvar à alienação e premiar uma obra “água com açúcar”.

Assisti ao filme e definitivamente não tenho essa impressão. É sem duvida um filme que assume sem pudores o discurso romântico e sob uma narrativa fantástica, como tantos do mesmo diretor mexicano. Todavia, vejamos elementos do filme em uma sinopse, prometo, sem spoilers expressivos.

Um ser aquático capturado em águas amazônicas está preso em um complexo militar estadunidense durante a guerra fria. Esse ser “latino-americano” sofre diariamente terapias de tortura do comandante militar estadunidense. Por sua vez, esse mesmo comandante sofre assédio moral de seu superior, um general ortodoxo que vê na forma anfíbia do ser uma criatura inferior, irracional e bruta.

A protagonista do filme é uma mulher simples e solitária, uma funcionária de limpeza do local. Não qualquer mulher, uma mulher muda. Uma mulher muda que sofre assédio sexual do comandante militar. E é exatamente essa mulher (socialmente inexpressiva, diminuída, sexualmente assediada e sem voz) que se permite o olhar sobre o ser capturado em sua beleza, fome e sensibilidade e, por consequência, o envolvimento amoroso com o ser fantástico. Revela-se a pessoa mais corajosa de todas naquele complexo militar, e em nome de uma única coisa: o seu desejo. Fica até a questão sobre qual a sua maior coragem: “roubar” uma “propriedade” militar altamente sigilosa ou se permitir amar a forma máxima da alteridade – o monstro, o animal, o estrangeiro.

Será mesmo que as pessoas assistem a essa narrativa e somente se atenham aos aspectos do velho e desgastado amor romântico? Estarão cegos diante da política tacanha embebida em ofensa e pós-verdade que assola o Facebook?

O diretor Guillermo Del Toro disse, ao receber o Oscar, que ele era por fim um imigrante – um estrangeiro. Não seria uma pista clara de sua posição política como diretor dessa obra?

Não seria talvez a protagonista – essa mulher explorada, assediada, diminuída e, diga-se, ainda libidinosa, que muda de forma ao seguir seu desejo -, a personagem contemporânea a dar uma “forma” de resposta a nosso tempo “líquido”? Ao final talvez devamos deixar nossa coragem florescer do nosso desejo em vez de ceder a discursos ideológicos prontos. Talvez assim, se faça genuína política.

Não que tenha sequer entrado no meu top 100 filmes da minha vida. “O Labirinto do Fauno” do mesmo diretor é, a meu ver, bem melhor como obra cinematográfica. Goste-se ou não do filme, mas negar sua política não faz sentido algum nos tempos atuais. Observar essa trama em pleno século XXI de luta contra xenofobia e terceira onda feminista, e somente enxergar a parte piegas da história me parece uma expressao da miopia política de agora. Miopia gerada possivelmente por essa forma de discurso da interdição de tudo que não seja escancaradamente a favor daquilo que pensamos, e que assola nossas vidas e redes sociais.

Parece ser piegas então, mas não estaria a política cega ao amor? Ou quem sabe apenas temporariamente muda.

 

(imagem: Ilustração da artista Alina Chau inspirada em “A Forma da Água” de Guillermo Del Toro)

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