É preciso negociar com o monstro – por Fernando Chuí

Quando vejo manifestações de desprezo, deboche e riso nas redes sociais com relação ao assassinato da vereadora Marielle Franco, me deparo sobre o significado do mal em nossa era. Uma das definições que mais me ajudaram a definir o sentido da maldade eu vi em um diálogo do filme “O Julgamento de Nuremberg”. O personagem do psicólogo, após entrevistar um dos comandantes nazistas a serem julgados por seus monstruosos crimes de guerra, diz que havia entendido o que seria a expressão do mal: a ausência de empatia.

Essa é também a ideia da filósofa Hannah Arendt quando expressa a ideia da “banalidade do mal”. A capacidade de não se importar com quaisquer atos de crueldade com alguém, contanto que aquilo a princípio não o afete diretamente.
Pesquisas mostram que uma parte bastante expressiva da população brasileira combate hoje a ideia dos direitos humanos. Ou seja, posicionam-se contra a ideia de que, independente do que sejamos, haverá sempre limites para a violência a que seremos acometidos.

Dessa forma, uma parcela considerável entre nós não entende uma execução a sangue frio como algo a ser execrado quando ela se dá vitimando pessoas que seriam inimigos por fim. Estaria aí o germe de um monstro gerado no útero da completa ausência de empatia com aquilo que é hediondo; a crueldade que não se faz sentir, onde a insensibilidade de quem não se importa com o crime é da mesma matéria abstrata daquela de quem o comete.

A pergunta que me surge é: a partir de tal concepção, qual deve ser nossa posição com relação a essa maldade intrínseca que assola boa parte da sociedade? Devemos combatê-la de forma ofensiva como a um inimigo bárbaro que nos cerca em uma guerra medieval? Devemos pensar em mecanismos de formação da sociedade em que ajudemos a educar as pessoas para ideias de empatia e direitos universais?

Não sei. A ideia do embate direto me parece pouco eficaz se realizada de maneira pouco refletida, sendo que na guerra uma das premissas que se estabelece é exatamente a não empatia com o oponente. Por outro lado, observar uma questão estrutural em constante agravamento como essa e pensar em soluções didáticas seria tentar ampliar a sensibilidade a longo prazo e sem qualquer garantia de sucesso. Essencial sim, mas pouco para agora.

Parece-me que o combate, ainda que inevitável, deva ser feito de maneira sóbria. O campo da política não deve se confundir com o palco sanguinário de guerras e execuções milicianas.
Se esse grupo é de fato tão numeroso a ponto de fazer memes sobre atos cruéis e apoiar massivamente candidatos fascistas à presidência da república, temos talvez que prestar atenção para o palco atual da democracia.

Eles são uma das forças que hoje regem o mundo. Usarão suas armas de todas as maneiras que puderem – e não há o que possamos fazer para impedir sua ação.

Penso que precisamos aprender a negociar com o outro lado. Por mais monstruoso que tantas vezes pareça ser. Não falo de aceitar argumentos ou atitudes canalhas, mas sim de perceber que os agentes dessas ações são parte expressiva do cenário político que se nos apresenta agora. Falo de apresentar propostas de interação com esse lado diante de uma sociedade sem utopias. Até mesmo porque essa interação é cotidiana, queira-se ou não.

Se você trabalha para uma empresa onde seu chefe é um sistemático explorador do trabalho de todos a sua volta, é provável que não se possa simplesmente dizer isso claramente em voz alta sem o risco severo de perder seu emprego e atrapalhar sua vida pessoal. Se você dá aulas para jovens que já cultivem em si uma visão fascista, você não terá como desconsiderar que ele é igualmente seu aluno e terá direito a sua livre expressão, contanto que não afete a expressão alheia. Se no seu almoço familiar seu parente resolve assumir ofensivas machistas/racistas e você partir para uma briga franca, ele não deixará de ser seu parente no próximo almoço. Será necessário que se negocie esse meio de campo. Que se criem estruturas públicas de questionamento em um tempo onde o anonimato e o aparato virtual parecem gerar ambiente propício para o estímulo a formas veladas de maldade.

Negociar em vez de guerrear com o outro pode ser inclusive uma proteção à sua crueldade; pois como disse o filósofo Nietzsche, que a batalha não se dê com monstros, pois você se torna um deles. Ou um dia, sem que você perceba, estará a lhes desejar o mesmo mal que eles lhes direcionam hoje. Negociação não é resignação, tampouco condescendência.

O lugar de conflito pode ser sim o espaço de negociação. Bom não perder de vista que é isso o que se define como política. O como negociar(?) é de fato o ponto complexo da questão, e certamente não há fórmulas simples. Porém saber negociar com o outro lado é compreender o palco democrático que permite que lutemos por ele enquanto outros lutam contra ele.

Pois não basta estar do lado certo das coisas: é preciso saber negociar com o monstro. Até porque o monstro pode ser mais próximo a você do que você pensa. Até porque o monstro pode estar mais dentro de você do que você imagina.

 

(desenho: Frank Miller in “Ronin”)

2 comentários sobre “É preciso negociar com o monstro – por Fernando Chuí

  • Chuí, parabéns pelo texto. Ficou excelente.
    Concordo contigo em relação ao fato de que é necessário construirmos esses espaços de diálogo. No entanto, a primeira características de um discurso fascista ou de um fascista é a desqualificação do interlocutor.
    Daí a pergunta: como construir essa ponte?
    Pelos laços de amizade? Pelos laços de parentesco? Sendo meio “Gandhi”?

    • Paulo caro, veja que não usei a palavra ponte ou mesmo diálogo. Possivelmente não deve ser possível um diálogo de fato com o fascista. Negociar é buscar construir cenários de convívio a partir de pontos de acordo para um pacto social. Ainda que em clara divergência e indisposição com o lado oposto, penso que precisamos aprender a conviver com o outro, por mais equivocado que o imaginemos.

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